Resenhas 2021

Nesta postagem, estão reunidas todas as mini-reviews das minhas leituras em 2020. O post será atualizado continuamente até o final do ano.

1.“Com amor, Creekwood” – Becky Albertalli. Os integrantes do Simonverse trocam e-mails nesse extra/continuação de “Simon vs. a agenda homo sapiens” e “Leah fora de sintonia”. Basicamente material para as shippers de Simon/Bram e Leah/Abby. 3/5

2. “The God-pleasing Crown Prince” (Heaven Official’s Blessing, v.2) – Mò Xiāng Tóngxiù. A backstory dos protagonistas gira em torno da queda do reino XianLe 800 anos antes do início do primeiro livro. Apesar da construção fascinante da devoção do Hua Cheng pelo Xie Lian (que começa como uma “devoção religiosa” pelo seu deus salvador e protetor, mas que na puberdade já havia se tornado uma atração física), o brilho dessa parte é a queda do reino. Esse romance tem empatia pelo movimento social que surge em Yong’an (a cena do casal pobre de refugiados rezando com a medalha do Xie Lian pouco antes do estopim do movimento é inesquecível), responsabiliza os governantes pelas escolhas erradas para lidar com a crise (a ironia da autora aparece em peso nessa sequência), mas também tem uma visão crítica sobre movimentos separatistas – especialmente aqueles “financiados” por “reinos estrangeiros”. Afinal, é a divisão do reino que [spoiler] causa a destruição de XianLe [/spoiler]. 5/5

3. “Os últimos quartetos de Beethoven e outros contos” – Luis Fernando Verissimo. Eu gosto de começar o ano com uma boa antologia do Verissimo porque o considero acima de decepções, mas há uma primeira vez para tudo. As crônicas e contos desse livro parecem as “sobras” das publicações nos jornais, variando entre 2 páginas e mais de 30, sendo inconstantes e chatinhas. A melhor é “A Mancha”, que lida com o esquecimento dos crimes da Ditadura Militar. 2/5

4. Fullmetal Alchemist v.06 – Hiromu Arakawa. Final do flashback sobre o treinamento de Ed e Al, explorando os paralelos com a mestra (transmutação humana, encontro com a Verdade) e encerrando com a volta para o presente.

5, 6, 7 & 8. Hunter x Hunter v.01, 02, 03 & 04 – Yoshihiro Togashi. Um shounen de lutinha divertido, com várias lutas baseadas em jogos intelectuais.

9. “No paths are bound” (Heaven Official’s Blessing, v.3) – Mò Xiāng Tóngxiù. O terceiro e maior livro da saga reúne alguns dos melhores arcos junto com o desenvolvimento e a confirmação do casal principal maravilhoso. Enquanto todo o conteúdo do ship foi ótimo, gostei do crescimento do Xie Lian e os capítulos finais me fizeram prender a respiração, a minha parte favorita ainda assim foi o arco do Black Water.

É raro encontrar uma personagem trans que consiga escapar dos estereótipos e dos papéis geralmente reservados para elxs na cultura pop, mas esse definitivamente é o caso de Shi Qingxuan, minha personagem favorita (ao lado do Hua Chengzhu). Mestre do Ar, oficial celestial incorruptível e amigável com todos, mas que vê a sua ética falhar quando se trata [spoiler] dos crimes do irmão mais velho, Shi Wudu, para lhe proteger [/spoiler]. Ainda assim, é talvez a capacidade de Shi Qingxuan para conquistar todo mundo com sua personalidade bondosa e exuberante que lhe tenha [spoiler] salvado a vida. A despedida dos irmãos partiu meu coração em um bilhão de pedacinhos. O Mont Tong’lu chegou perto de reconstituí-lo antes de destruí-lo de novo [/spoiler]. 5/5

10. “White-clothed calamity” (Heaven Official’s Blessing, v.4) – Mò Xiāng Tóngxiù. Os eventos trágicos pré-segunda ascensão do Xie Lian e a melancólica origem do Hua Cheng fantasma. TUDO dói. 5/5

11. “Heaven Official’s Blessing” (Heaven Official’s Blessing, v.5) – Mò Xiāng Tóngxiù. O encerramento da saga é divertido, dramático, hilário, doloroso e lindo. As personagens e o casal conquistaram o meu carinho e se despediram com chave de ouro. Talvez o principal destaque vá para o vilão, assustador e surpreendente na medida certa. Acho que poucos protagonistas foram tão torturados psicologicamente e ao mesmo tempo manipulados de uma forma tão crível por um vilão como foi o Xie Lian – mesmo sabendo da verdade por causa de um spoiler, a revelação ainda surtiu efeito e fiquei tensa em todas as cenas do protagonista com o vilão. Não, ele não o mataria, mas poderia fazer algo muito pior, vide livro 4. 5/5

12. The Scum Villain’s Self Saving System” – Mò Xiāng Tóngxiù. Shen Yuan transmigra para o universo de uma “stallion novel” (aka livros em que o protagonista seduz várias mulheres, que se apaixonam loucamente por ele, ou seja, fantasias de harém), no papel do vilão Shen Qingqiu, que foi brutalmente assassinado pelo protagonista – seu discípulo – no original. A partir das suas alterações, sem que perceba, o “ódio” do protagonista se transforma em um amor obsessivo pelo mestre…

Seguindo na contramão dos outros livros da autora, este tem um começo forte, mas se perde na reta final por culpa do casal tóxico e mal-desenvolvido. A comédia e a metalinguagem são o ponto forte do livro. A paródia serve pra fantasia, narrativas de vingança, harém, má escrita de personagens femininas, “cheats do protagonista”, furos de enredo, etc. e todos os clichês imagináveis. Inclusive, a relação conflituosa e hilária entre o “anti-fã” (SQQ alega odiar o livro, mas é perceptível que tinha uma relação de amor e ódio com o texto) e o autor é um comentário interessante sobre a dinâmica dos criadores com os leitores. O tema final [spoiler] que o autor sempre quis escrever um romance gay, mas foi forçado a apagar isso/deixar no subtexto para que a obra se tornasse mainstream e lucrativa, portanto, o poder “transformativo” (fanfic/meta/etc.) do leitor se apropriando da história e resgatando as intenções originais do autor [/spoiler]… É fascinante.

Contudo, o casal principal é o ponto fraco da história. Luo Binghe é yandere, obcecado, manipulativo, maluco, psicótico, infantil, além de forçar a barra continuamente, [spoiler] culminando num estupro [/spoiler]. Além disso, durante a maior parte da história (com exceção dum extra pós-fim), a impressão que fica é que os sentimentos de SQQ eram aqueles de um mestre por um discípulo, principalmente com uma boa dose de culpa por ter “falhado” com ele ao jogá-lo pro dark side. Se a intenção era retratá-lo como tsundere, não funcionou muito bem, ainda mais porque é possível amar ao discípulo sem estar apaixonado por ele – e essa é a sensação que a personagem passa, ao ponto de se sacrificar várias vezes pelo ingrato. Uma pena que numa história sobre subverter as estruturas narrativas originais e o poder transformador da interpretação do leitor, resgatando o conteúdo LGBTQ+ censurado, o protagonista acabou se sujeitando ao “sistema”. Além disso, pior ainda é realizar que a história – de um BL! – seria melhor sem a “parte gay”. 2,5/5

13. “Se você pudesse ser minha” – Sara Farizan. No Irã, Sahar se desespera quando descobre que sua namorada secreta e melhor amiga, Nasrin, vai se casar em breve. Se o relacionamento entre as garotas fosse descoberto, as consequências seriam graves: espancamento, prisão, até mesmo execução. O grande acerto do livro é retratar como é difícil – e perigoso – ser LGBTQ+ no Oriente Médio. Gostei muito da exploração de como a “aceitação” de transexuais pelo governo iraniano não significa que seja mais fácil do que para os outros grupos. Contudo, a autora falhou na construção do casal como um reflexo desse cenário angustiante – longe de ter sido obrigada, Nasrin escolhe se casar por interesses financeiros. Ela é mimada e inconsequente, achando que poderia ter um marido rico e otário, e manter a namorada na surdina, sem refletir sobre os perigos que as aguardariam ou os sofrimentos que traria para os três.

Além disso, embora tenha descendência iraniana, a autora é norte-americana, o que é perceptível em algumas escolhas narrativas e opiniões apresentadas pela narradora. Por exemplo, palavras em persa foram inseridas nos diálogos sem necessidade, como é comum nas novelas da Globo que forçam um sotaque para passar “verossimilhança” aos personagens estrangeiros. Apesar desses problemas, a resolução é coerente com a narrativa [spoiler] por mais que eu preferisse que tivesse ficado mais claro que Sahar vai seguir em frente [/spoiler]. 3/5

14. “A nuvem da morte” – Arthur Conan Doyle. Nesse curto romance, o excêntrico professor Challenger reúne os parças na sua casa para alertá-los que o mundo está perto do fim. Challenger sabe uma maneira de salvá-los (e, por algum motivo, imagino que elitismo, não aplicou nos funcionários que viviam na sua mansão. Ótima pessoa). Para uma ficção científica sobre um iminente fim do mundo, é bem chatinha. Há elementos sutis do racismo e da xenofobia esperados para um homem do tempo do autor (os britânicos – brancos, claro – ficaram por último porque são “mais complexos” do que os outros povos. Além disso, “revolta racial” nos EUA é citada como um sinal do fim dos tempos). A relação entre os autores e suas obras é sempre curiosa – Doyle odiava seu detetive famoso, mas apreciava esse romance. 2/5

15 & 16 Yu Yu Hakusho v.01 e 02 – Yoshihiro Togashi. Yusuke morre antes da sua hora, salvando a vida de uma criança. O sacrifício contrapôs as suas atitudes de “delinquente” em vida, assim, sendo impossível determinar qual o lugar ideal para ele no além-mundo. Por causa disso, a guia espiritual Botan lhe informa que terá a chance de ressuscitar – desde que cumpra uma missão… O início de Yu Yu poderia facilmente ter dado origem a saga de um fantasminha camarada ajudando a criançada, uma história mais infantil e cômica, com umas boas pitadas de romance, ao invés do clássico shounen de lutinha com uma das melhores versões do Makai. Não que isso seja algo ruim: Yu Yu já começa leve e divertido, com uma proposta interessante, um traço competente e um protagonista carismático.

17. “Poesia que transforma” – Bráulio Bessa. Essa antologia de poemas tem inspiração na literatura de cordel, com uma pegada de autoajuda e de crítica social (principalmente ao preconceito contra nordestinos). As ilustrações são uma gracinha e os relatos autobiográficos que acompanham os poemas enriquecem a edição. Aliás, é um dos ebooks mais bonitos da minha coleção. Contudo, senti que faltou “substância” para a maioria das poesias, os poemas do miolo não têm o mesmo impacto dos que abrem e fecham a antologia. 3/5

18. “O Rei Perverso” – Holly Black. Na continuação do romance “O Príncipe Cruel”, Jude Duarte tem que manter o controle do Reino das Fadas (e de seu rei, Cardan, o personagem-título) em meio a intrigas palacianas, traições e conflitos políticos. Agora que adquiriu o poder absoluto dentro da Grande Corte, seria realmente capaz de passá-lo para outra pessoa? Se no primeiro livro “família” precedia “ambição” para a protagonista, na sequência ela está cada vez mais distante dela, enquanto se envolve cada vez mais com Cardan. O jogo de “gato e rato” dos inimigos-amantes é uma constante tensão no cenário de fundo do livro, sendo tão provável que eles se peguem quanto que se destruam mutuamente. Situado dentro do universo dos contos de fadas cruéis da autora, essa trilogia é o auge da saga. 5/5

19. Slam Dunk v.9 – Takehiko Inoue. A partida contra o Shoyo chega ao fim com Rukawa confortando e encorajando (a sua maneira) Sakuragi, assim desenvolvendo o laço entre os “rivais” (que, em como todo bom mangá de esporte, são o verdadeiro “romance” da narrativa =P). Esse volume foi engraçado e emocionante na medida certa.

20. D.Gray-Man Illustrations: Noche – Katsura Hoshino. Artbook de DGM, com as belíssimas ilustrações da série. Além disso, no final há duas entrevistas da Hoshino que enriquecem a obra, uma na companhia do autor de Kochikame, outra com seu ídolo Takeshi Obata. O único defeito é que poderia ser maior. 5/5

21. “The land I lost” – Cassandra Clare & Sarah Rees Brennan. Um extra do universo dos Caçadores de Sombras que conta a história de como Malec adotou Rafael. A caracterização do Alec está impecável, provando novamente porque é o meu personagem favorito desse universo (e um dos favoritos em geral). Contudo, me pergunto quão menor seria essa novela sem as contextualizações para explicar as muitas pontas de personagens das várias sagas da CC. Isso dito, a empatia do Alec e a fofura do melhor casal da saga (com participação especial do segundo melhor casal) suplantam qualquer defeito. 4/5

22. Given v.03 – Natsuki Kizu. O conforto depois da dor. Nesse volume, o casal principal esclarece que os sentimentos são mútuos e começam um namoro fofinho. Além disso, eu adquiro o meu selo de problemática por achar a relação disfuncional e complicada do Akihiko com o Ugetsu mais interessante do que com o Haruki (principalmente porque esse último não me convence como personagem).

23. “Sombra e Ossos” – Leigh Bardugo. Nesse romance, Alina descobre que é uma Conjuradora do Sol e a única que poderá salvar o seu país. Faz tempo que eu não tinha sentimentos tão mistos com relação a um livro – de um lado, Leigh Bardugo sabe como contar uma história que prende a leitora e o vilão é a mistura de frio, arrogante, charmoso e com motivações interessantes que me atraem. Por outro lado, longe do mundo fascinante de Six of Crows, a fantasia desse livro parece mais uma metáfora pálida para o Ensino Médio norte-americano. Tem a mocinha comum que se envolve com “o rapaz mais popular da escola” e ambos viram “o rei e a rainha do baile”, a mean girl, os grupinhos rivais… Além disso, a protagonista é ok, mas também é uma heroína fraca – há um momento em que o gaslighting do vilão acerta em cheio: [spoiler] “você tem o poder para salvar o seu país, mas prefere ser a dona de casa do rastreador”. [/spoiler] Ou a donzela em perigo mais do que disposta a esperar que outra pessoa solucione todos os seus problemas, até ser forçada a agir. Isso dito, a reta final é empolgante e deixa um bom gancho para a sequência. 3/5

24. Dragon Ball Edição Definitiva v.3 – Akira Toriyama. Nesse volume, Goku e Kulilin terminam o treinamento com o Mestre Kame e participam pela primeira vez do Torneio das Artes Marciais. A partir desse volume, DB começa um processo de transformação de um gag mangá (comédia) para um shounen de lutinha (ação). Esse é o ponto em que a história realmente começa. Aliás, há vários momentos desse torneio que serão referenciados no epílogo, tanto no aspecto visual quanto nos diálogos. Há paralelos entre Goku aqui e Pan no epílogo, assim como o competidor Nam e o futuro discípulo de Son Goku, Oob (ou “Ubu”). De resto, é um volume muito divertido, cheio de lutas ágeis e o companheirismo entre Goku e Kulilin é adorável. Também acredito que seja nesse momento em que “lutar” passou de uma finalidade (salvar os outros) para um esporte para o protagonista. Além de herói, Goku é um grande artista marcial. 5/5

25. Prelúdio do Arco-Íris – Osamu Tezuka. Essa antologia reúne one-shots (contos em mangá) de Osamu Tezuka publicadas em revistas shoujos (público-alvo feminino) entre 1958 e 1975. Na verdade, a maioria saiu entre 1958 e 1959, com exceção da história “Prelúdio do Arco-Íris”, publicada em 1975. Graças a isso, é possível notar uma significativa mudança no traço, além da evolução técnica – por exemplo, o enquadramento engessado da segunda imagem em comparação com o enquadramento dinâmico da terceira imagem.

Osamu Tezuka é um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento dos mangás. Não é por nada que ficou conhecido como o “Deus dos Mangás”. Como uma leitora de mangás e colecionadora, é até vergonhoso admitir que, apesar de saber muito sobre ele, essa é a primeira vez que realmente leio esse clássico autor. E o que posso dizer é que, mais do que seus méritos técnicos, Tezuka era um grande contador de histórias. Em nenhum momento fiquei entediada ou me perdi nas narrativas. Esses contos podem não ser o melhor que ele tem a oferecer, mas são uma boa porta de entrada.

Também é possível notar os problemas e os méritos. De um lado, há a representação racista dos negros. Essa representação ser comum na época não a torna aceitável. Por outro lado, sendo uma antologia voltada para garotas, me surpreendi positivamente com a representação das mulheres. Elas possuíam agência, papéis significativos nas histórias e objetivos além do romance.

Com relação à edição da NewPop, a qualidade técnica é impecável. Contudo, a revisão deixou a desejar em alguns momentos.

26. Yu Yu Hakusho v.03 – Yoshihiro Togashi. A missão do detetive espiritual Yusuke é encontrar três objetos espirituais roubados por um grupo de youkais. Nesse volume, Yu Yu se torna um shounen de lutinha e temos a introdução de Kurama e Hiei (este último prova que todo mundo já teve uma fase feia na vida =P). A parte final do volume é centrada em uma nova missão para o protagonista, infiltrar-se na seleção de um discípulo pela Mestra Genkai. Curiosamente, essa seleção e o exame Hunter (de Hunter x Hunter, do mesmo autor) têm muito em comum.

27. Banana Fish v.01 – Akimi Yoshida. O mangá começa em 1973, no Vietnã, quando um soldado americano surta, ataca os outros e profere as palavras “banana fish”. Em 1985, nos EUA, o líder de gangue Ash tenta resolver esse mistério, pois pode ser a chave para acabar com a máfia de Papa Dino. Enquanto isso, o japonês Eiji é assistente de um jornalista em um trabalho sobre as gangues de Nova Iorque. Por causa disso, acaba se envolvendo nessa trama e, principalmente, se tornando o grande amor da vida do Ash.

Banana Fish lida com temas pesados como tráfico de pessoas, estupro, pedofilia. A trama policial abarca desde a máfia até esquemas governamentais. Além disso, o protagonista teve uma das vidas mais desgraçadas de qualquer mangá. Não é uma história minimamente feliz. Contudo, tem um ritmo eletrizante e é impossível não se apegar a relação central da trama. E a edição da Panini ficou muito bonita.

O que dizer de Banana Fish? É um mangá shoujo clássico. Não é shounen, não é BL, embora tenha uma representatividade LGBTQ+ significativa, mesmo que possamos apontar vários problemas. É uma obra excelente para se pensar na história de vida sofrida de muitas pessoas que cometeram crimes, por mais que a autora em si seja extremamente conservadora (nível “bandido bom é bandido morto”*). É uma tragédia, mas não é insatisfatória, já que a jornada do protagonista é completa. Essa é a minha primeira vez lendo o mangá, mas chorei horrores assistindo a adaptação linda para anime. Em ambas, a minha impressão é a mesma: Ash merecia ser feliz. 5/5

*Entrevista da autora (spoilers do final).

** Recomendo o VideoQuest sobre o anime de Banana Fish produzido pelo Amazon Prime.

28. “Arsène Lupin contra Herlock Sholmes” – Maurice Leblanc. Dividido em duas novelas interconectadas, “A Mulher Loura” e “A Lâmpada Judaica”, esse livro apresenta o duelo intelectual entre o ladrão francês Arsène Lupin e o detetive britânico Herlock Sholmes (qualquer semelhança com o detetive criado por sir Arthur Conan Doyle não é mera coincidência). Como fã de longa data do verdadeiro Sherlock Holmes, me diverti bastante com essa sátira. 3,5/5

Destaque para o deboche do Lupin [spoilers]:

“– O senhor! O senhor! Mas o senhor está preso! Sholmes me contou. Quando ele se despediu, Ganimard e seus trinta agentes o cercavam…

Lupin cruzou os braços e, com ar indignado:

– Então os senhores imaginaram que eu os deixaria partir sem dizer adeus? Após as excelentes relações de amizade que jamais deixamos de cultivar uns com os outros? Mas isso seria o cúmulo da indelicadeza. Por quem me tomam?”

29. Yu Yu Hakusho v.04 – Yoshihiro Togashi. Esse volume abarca o final do Torneio da Genkai e o começo de uma nova missão. Essas sagas são importantes porque desenvolvem a amizade do Yusuke com o Kuwabara, introduzem a Genkai e têm a “mudança de lado” de Kurama e Hiei, estabelecendo o quarteto/quinteto. Mas foi um volume bem chatinho.

30. “O Inocente” – Harlan Coben. Nesse romance policial, quando o ex-presidiário Matt Hunter finalmente está com a vida de volta nos eixos, um mistério envolvendo a sua esposa abala tudo. As várias tramas atrapalham o início da leitura, mas conforme elas se conectaram, foi impossível largar o livro. Coben merece o título de “mestre das noites em claro”. As personagens são dimensionais e os temas bem trabalhados (ambos se centram na definição da palavra “inocente” – até onde vai a culpa de Matt, Olivia, etc.? Até quando devem pagar pelo passado? O que significa seguir em frente e recomeçar?). Meu problema está na reta final. As reviravoltas não têm o traço marcante do autor, a genialidade dos seus quebra-cabeças não está tão presente nesse livro. Além disso, senti que o final foi feliz e amarradinho demais. 3,5/5

31. Monster v.01 – Naoki Urasawa. Monster é para muitos a obra-prima do célebre mangaká Naoki Urasawa. O pontapé inicial é o seguinte: o neurocirurgião Tenma recebe ordens para abandonar o paciente (um operário turco) e operar um tenor famoso. O operário morre. Quando se encontra diante de um dilema semelhante, ordenado a abandonar uma criança para operar o prefeito, Tenma se recusa.  Apesar das consequências profissionais e pessoais, essa decisão catalisa a sua nova filosofia de vida, priorizando a máxima da medicina (salvar vidas) acima das suas ambições. Anos depois, Tenma descobre que a criança virou um serial killer.

Como é comum nos thrillers japoneses, os questionamentos éticos são feitos sem que hajam respostas fáceis. Afinal, é fácil se indignar com as falas do diretor-geral e de Eva, se identificar com o protagonista e concordar com a sua escolha. Mas o que acontece quando se descobre que ressuscitou um monstro? Quando a base da sua crença é arruinada? Além disso, Urasawa é o tipo de autor que cria personagens marcantes mesmo quando possuem apenas uma participação insignificante. Nenhuma morte é gratuita. As situações são pensadas para gerar reflexão, não pelo simples choque.  

Essa edição definitiva 2-1 da Panini é, sem sombras de dúvidas, o mangá mais caprichado da minha coleção. Capa dura, papel de alta gramatura, páginas coloridas, sobrecapa que forma uma única ilustração com o restante das capas e uma capa interna muito bonita. O preço é salgado, ainda mais considerando que foi lançado originalmente em periodicidade bimestral, mas várias edições continuam disponíveis no site da editora. 5/5

32. D. Gray-Man v.27 – Katsura Hoshino. Nesse volume, Kanda gentilmente (a sua maneira) convence Allen a lhe contar a verdade sobre o passado. Allen tenta fugir do assunto, mas se lembra que também viu o passado doloroso de Kanda e resolve lhe contar tudo enquanto assistem ao pôr-do-sol. Nos flashbacks, o triste passado do protagonista (escravizado, discriminado e abusado em um circo) e a história de sua adoção por Mana são o foco do volume. O mangá promete, mais uma vez, fazer revelações dignas da reta final, mas com exceção de uma conversa ambígua entre Cross e Road (em que é insinuado que DGM na verdade se passa num – ou na ilusão de um – futuro pós-apocalíptico) não há nada de novo. O desenvolvimento de Yullen é belíssimo (também a sua maneira) e temos a prova, aqui, que Kanda – e não Johnny – era exatamente quem Allen precisava. É possível que haja foreshadowings (tanto esperançosos quanto trágicos) de um possível final, re: ir embora ao lado da pessoa amada ou morrer ao seu lado. A primeira opção é o meu sonho pra Yullen, afinal não custa nada sonhar quando ainda há no mínimo mais uma década pela frente, né? Já sobre a edição da Panini, parece que deu uma piorada significativa com relação aos volumes anteriores… Principalmente por conta do papel higiênico de má qualidade.

33. Dragon Ball Edição Definitiva v.4 – Akira Toriyama. Esse volume encerra o divertido arco do Torneio de Artes Marciais, com o “Jackie Chun” (Mestre Kame) ensinando uma lição que Goku levará até o fim do mangá: sempre há oponentes mais fortes. Além disso, também compila o início da saga Red Ribbon. A nova saga é uma paródia do cinema, brincando com os gêneros suspense/espionagem (em particular com os filmes de James Bond), aventura e faroeste. Destaque para a referência ao Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro (última foto). Com relação à edição, acredito que essa seja a que contou com mais páginas coloridas até o momento.

34. Given v.4 – Natsuki Kizu. Esse é um volume extremamente difícil de resenhar. Eu mencionei na minha review anterior que acho a relação disfuncional do Akihiko com o Ugetsu mais interessante do que com o Haruki. Esse triângulo pega fogo no v.4. Por um lado, Ugetsu se mostra uma personagem multifacetada e o seu lado da história é a melhor parte. Ele e Akihiko namoraram na adolescência, mas Ugetsu percebia o ressentimento – e o sofrimento – que o seu talento “superior” no violino causava no namorado. Assim, terminou o namoro, mas continuaram morando juntos. Esse “vai e volta” intensificou todos os sentimentos. Principalmente, aqueles de natureza negativa, como o ressentimento, a inveja, a raiva um do outro e a possessividade de Akihiko. Sim, é um sentimento de posse muito mais do que ciúmes – afinal, Akihiko transava com uma mulher quando recebeu a mensagem de que Ugetsu estava em casa com um novo namorado. Percebe a hipocrisia? Quando ele os encontra na cama, ambos se machucam fisicamente, sendo esse o estopim para o fim dessa relação.

Esse talvez seja o tema mais interessante de Given: Kizu defende que relacionamentos que consomem todo o seu ser, que um não existe sem o outro, caminham para uma direção mutuamente destrutiva. Relacionamentos sem essa intensidade, baseados em sentimentos mais leves e confortáveis – se sentir bem ao lado da outra pessoa – é que deveriam ser almejados. Contudo, enquanto Haruki pode representar isso para Akihiko, será que a recíproca é realmente verdadeira? Eis a segunda parte do volume: Akihiko desconta a “raiva” no amigo que é apaixonado por ele e o estupra. Não houve uma penetração peniana, mas enfiar os dedos no ânus de outra pessoa enquanto ouve um claro e enfático “não” é estupro. Ponto. O mangá parecia que ia tratar esse assunto com algum nível de responsabilidade, com Haruki magoado, compreensivelmente irritado, cortando os cabelos (simbolismo de seguir em frente) e impedindo que Akihiko lhe tocasse mesmo depois de este pedir desculpas e assumir a culpa. Ênfase em “parecia”, pois um voiceover misturado com cenas típicas de passagem de tempo enquanto moravam juntos (e Haruki realmente “conhecia” Akihiko) foi a justificativa para o perdão no final do volume. Given se saiu melhor do que outros BLs? Sim. Mas olha, se não vai tratar estupro com a devida gravidade, então não introduzisse uma cena desse nível entre um dos casais principais. Akihiko poderia ter humilhado Haruki de outra forma, forçado um beijo ou feito pouco caso de seus sentimentos. Não havia a menor necessidade de ir tão longe. 2/5

Lista de resenhas

Durante o ano, eu procurei resenhar brevemente todas as minhas leituras. O objetivo era guardar os meus principais pensamentos sobre cada uma das obras. No podcast, comentei as melhores leituras de 2019. Aqui está a lista completa.

Sem enrolações, segue a lista: Continuar lendo

Comentando Blood-C

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Saya Kisaragi é a sacerdotisa do templo de uma pacata cidadezinha e passa seus dias entre seu ofício e a escola. Mas a cidade e seus amigos se tornam alvo de criaturas monstruosas, os “antigos”, e cabe a ela empunhar a espada para enfrentá-los!

Detalhes da edição:

13 x 18 cm
200 páginas
Capa Cartão
Lombada Quadrada
Papel Pisa Brite
Publicação Bimestral
Preço: R$ 10.90
Distribuição Setorizada

Em 2011 passou no Japão o anime resultante da parceria entre o estúdio Production I.G. e o grupo de mangakás CLAMP. Com um início monótono, o anime feito por figurões e levando consigo o nome da excelente franquia Blood rendeu 12 episódios, um filme (Blood-C: The Last Dark, 2012) e o mangá de quatro volumes sobre a responsabilidade de Ranmaru Kotone.

É a versão shounen mangá que a Panini Comics, no selo Planet Mangá, lançou no Brasil em 2013. Como o anime me proporcionou tédio na melhor das hipóteses, comprei o mangá por não resistir às propensões de colecionadora, gostar do trabalho da Panini (tão bom quanto usual em Blood-C), colecionar a franquia Blood e os produtos com a assinatura CLAMP. E não me arrependi.

Enquanto Blood-C poderia ter utilizado de um maior desenvolvimento de suas tramas e personagens, quatro volumes era o ideal para o enredo principal. No terceiro volume está o plot twist interessantíssimo e inovador que talvez não tivesse o mesmo efeito caso a história fosse maior (pois muda completamente a percepção sobre todas as personagens envolvidas).

A verdadeira personalidade de Saya é tão gostável quanto a sua personalidade falsa, e o vilão – apesar de seus motivos que poderiam ser mais desenvolvidos – é interessante. Embora a combinação entre terapia e um flertar tradicional (ele é rico!) solucionariam seus problemas. As personagens que acompanhamos no último volume são legais e caso haja uma continuação com Saya e esse grupinho, serei uma leitora fiel.

Ranmaru Kotone é o “desconhecido” entre os autores de Blood-C. Embora não seja o primeiro trabalho seu que é uma adaptação (tendo já adaptado light novels e filmes antes), ele costuma fazer mangás de curta duração. A arte dele é competente e facilmente apreciável com o formato que a Panini utiliza para a franquia Blood (um dos melhores que tem a oferecer entre os formatos simples).

Recomendado para os que gostam de uma aventura (não tão vampírica quanto seus antecessores), Blood-C é legal, a reviravolta compensa a confusão inicial que proporciona. É construído no ritmo ideal para a trama, embora a falta de explicação sobre a identidade por trás do gato falante possa ser frustrante para os que desconhecem a obra da qual ele provém. Há easter eggs fáceis de encontrar para os fãs do CLAMP (inclusive no gato).

Nota geral: ♥♥♥

Review: As Peças Infernais – Cassandra Clare

Capas originais.

Capas originais, respectivamente, de Anjo Mecânico, Príncipe Mecânico, Princesa Mecânica.

A trilogia de fantasia urbana As Peças Infernais (Anjo Mecânico, Príncipe Mecânico, Princesa Mecânica) é prequel de Os Instrumentos Mortais, se passando 130 anos antes na Inglaterra vitoriana. Conta a história de Tessa Gray, que vai para Londres viver com o irmão mais velho, para então ser sequestrada pelas Irmãs Sombrias, as quais pretendem casá-la com um líder do Submundo – seu contratante Mortmain – e forçá-la a utilizar seus recém-descobertos poderes de se transformar em outras pessoas a serviço de Mortmain e seus autômatos numa guerra contra Os Caçadores de Sombras (guerreiros que protegem o mundo dos demônios e membros do Submundo).

Salva e oferecida abrigo pelos Caçadores de Sombras do Instituto de Londres, Tessa envolve-se num triângulo amoroso com os Parabatai (e melhores amigos) Will e Jem, enquanto tenta descobrir a verdade por trás do seu nascimento e de sua habilidade. Enquanto o triângulo certamente é capaz de dividir os leitores entre os “times” do Will ou do Jem, em nenhum momento Tessa é tratada como um objeto a ser disputado com um vencedor ganhando seu coração, e a amizade entre os garotos é um dos pontos fortes da saga. Continuar lendo