Resenhas 2020

Nesta postagem, estão reunidas todas as mini-reviews das minhas leituras em 2020.

1. “Call Down the Hawk” – Maggie Stiefvater. Mais um spin-off do que realmente uma continuação de TRC. A atmosfera é diferente (como se fosse um sonho), a história é nova (com um novo mundo de possibilidades), e os Lynchs dividem tempo com Jordan & Hennessy, Carmen e Liliana. 4/5

pynch cdth spoilers

2. Hellblazer Origens v.06: O Homem de Família – Jamie Delano, et all. O problema de uma divisão cronológica é que um ótimo arco como “O Homem de Família” compartilha a mesma edição que um capítulo bocó em que Constantine salva o mundo da dominação canina. 3,5/5

Hellblazer 2

3. “O opositor” – Luis Fernando Veríssimo. Essa novela tem um estilo parecido com o de Kurt Vonnegut, embora apenas flerte com a História alternativa. Uma boa e envolvente leitura rápida. 3/5

4. “No seu Pescoço” – Chimamanda Ngozi Adichie. Essa antologia mantém o padrão de qualidade do primeiro ao último conto, do mais mundano ao mais trágico. Todos cheios de vida. Além disso, é impossível não comparar as cicatrizes da colonização da Nigéria com o Brasil. 5/5

5. Mars v. 02 – Fuyumi Soryo. A autora mescla romance, comédia e drama com naturalidade. Bônus: uma das minhas tropes românticas favoritas (que, aliás, foi usada em três finais de ships queridos):

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6. Hellblazer Origens v.07: O Coração do Menino Morto – Jamie Delano, et all. Último da fase do Delano, responsável por estabelecer o John e seu universo. “Fantasmas do passado servem para lembrar você de quem você é e de como perdeu seu caminho.”

7. “Star Wars: Revenge of the Sith” – Matthew Stover. A novelização adiciona várias camadas para a trama, para as personagens e para o mundo. Os segmentos “This is how it feels to be…” são a melhor parte do livro, ainda mais considerando que levam para este momento: (4/5)

 

8. Mars v. 03 – Fuyumi Soryo. Mars continua com uma mescla perfeita de gêneros (drama, comédia e romance), ao mesmo tempo em que avança a história das personagens. Nesse volume, Rei disputa uma corrida, enquanto Kira participa de um concurso artístico. 5/5

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9. “Confissões” – Kanae Minato. Um thriller psicológico perturbador, contado em forma de inúmeras confissões (uma aula, uma carta, um diário, um monólogo, etc.). Uma professora se vinga dos alunos que mataram a sua filha. Todas as personagens são narradores não confiáveis. 4/5

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10. Death Note one-shot – Tsugumi Ohba & Takeshi Obata. Um retorno divertido para o universo de DN, seguindo um jovem que tenta vender o caderno, com EUA e China na disputa. Nerds reaças já acusam os autores de uma “agenda SJW” por causa da caracterização perfeita do Trump. 5/5

11. “O Herói Perdido” – Rick Riordan. O primeiro livro da saga “Heróis do Olimpo” é divertido. Contudo, depois de um bom setup, o meio enrola demais, com subtramas dentro da missão (que fazem referência ao primeiro livro de PJO). 3,5/5

12. “Melhores Poemas Cecília Meireles” – Cecília Meireles. “Por adeuses, por suspiros, no território dos mitos, fica a memória mirando a forma ilusória dos precipícios da humana e mortal história.”

13. “O passado é um lugar” – Tana French. Um romance policial e um estudo de personagem sobre uma família disfuncional e o papel da classe social nisso. As ótimas personagens, em outro POV, seriam detestáveis. A descrição da família como um “hospício” me acertou em cheio. 4,5/5

14. “O Prisioneiro do Céu” – Carlos Ruiz Zafón. Ponte entre dois livros, o mérito dessa continuação é atiçar a curiosidade pelo próximo e o defeito é o sexismo acentuado pelo foco no Fermín. Senti falta da atmosfera envolvente do primeiro livro, com o charme de Barcelona. 2,5/5.

15. “Os Pergaminhos Vermelhos da Magia” – Cassandra Clare & Wesley Chu. O culto que Magnus fundou durante uma noite de bebedeira atrapalha as suas férias com Alec. Essa premissa rendeu mais plot do que TDA, em uma aventura divertida, com a dose certa de romance e fanservice. 4/5

16. Mars v. 04 – Fuyumi Soryo. “Rival se torna a melhor amiga da mocinha e passa a protegê-la” é o meu clichê favorito de shoujo. Harumi oficialmente passou a se encaixar nisso nesse volume.

17. “1984” – George Orwell. “1984” é um clássico que levanta inúmeras reflexões: sobre totalitarismo, história e memória, controle e manipulação da mídia e, acima de tudo, sobre o “socialismo que rejeita todos os princípios do socialismo, mas o faz em nome do socialismo”. 5/5

18. “E Não Sobrou Nenhum” – Agatha Christie. Compreendo o fascínio gerado pela premissa envolvente desse livro, ao ponto que ainda hoje há releituras e paródias. Contudo, prefiro mistérios com personagens carismáticas ou então com mais espaço para brincar de detetive. 3/5

19. Witch Hat Atelier v. 01 – Kamome Shirahama. Bonitinho e com uma arte adorável. Dica para assinantes Prime ou Kindle Unlimited: busquem por “comixology” na Amazon que terão acesso aos mangás disponíveis.

20, 21 e 22. Saint Seiya: The Lost Canvas v. 1, 2 & 3 – Masami Kurumada X Shiori Teshirogi. O anime é superior e o traço do mangá é irregular. Contudo, esse começo é exemplar em estruturar a história entre duas promessas (Tenma & Alone e três amigos), que levam ao grande objetivo e tema da história (salvar Alone, tema amor), o qual é refletido nos paralelos (o sacrifício de Albafica pelo vilarejo).

CDZ The Lost Canvas

O que é “estraçalhar todos os ossos do corpo” para um cavaleiro de ouro? Por favor, nunca mude, CDZ.

23. Minha Experiência Lésbica com a Solidão – Kabi Nagata. Esse mangá é uma autobiografia intimista e sincera, além de um ensaio sobre a luta da autora contra as suas doenças mentais, a exploração da sua sexualidade e o desejo de ser aceita pelos pais versus o seu bem-estar. Excelente trabalho editorial da NewPop. 3,5/5

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24. “À primeira vista” – David Levithan & Nina LaCour. Já li um livro de cada autor anteriormente. Amei “Estamos Bem”, da LaCour, mas “Will & Will”, parceria do Levithan com o John Green, não me agradou. “À primeira vista” tem uma premissa parecida com este último: uma amizade súbita que altera as vidas – e os romances – dos protagonistas. A diferença é que Will & Will acaba privilegiando uma personagem secundária e não entregando a premissa, enquanto “À primeira vista” a cumpre num ritmo agradável. 3/5

25. Vinland Saga v. 21 – Makoto Yukimura. Esse é o primeiro volume que leio de Vinland Saga desde que terminei a adaptação em anime. Há uma diferença no tom do original, que é mais seco, para o tom mais sentimentalista da adaptação. Contudo, experimentar novamente a história do “Prólogo” me permitiu um novo olhar durante a leitura. Thorfinn novamente se depara com a questão da vingança no v. 21, agora como um homem adulto e com uma filosofia bem definida. Esse Thorfinn “paz & amor” é quem a Gudrid conheceu e aqui finalmente temos os primeiros sinais de um romance entre eles. O anime enfatizou bastante o sonho do Thorfinn, o mesmo sonho da Gudrid: navegar, explorar o mar e o mundo. A saga “Guerra no Mar Báltico” está caminhando para a conclusão e acrescentando uma tensão interessante entre essas duas personagens. Que venha o v. 22!

26. “A Casa Assombrada” – John Boyne. Uma história de fantasmas inspirada em “A Volta do Parafuso”, de Henry James. A premissa é a mesma: uma governanta responsável por cuidar de duas crianças em uma casa mal assombrada. A versão de Boyne é mais divertida do que a original, trocando a incerteza do relato de uma protagonista confusa por fantasmas mais assustadores e uma protagonista mais determinada. 3/5

27. “Emma” – Jane Austen. Casamenteira nata, Emma gera uma verdadeira comédia de erros ao procurar por um marido “apropriado” para a sua amiga Harriet. O bom humor irônico de Austen está bem presente nesse romance, garantindo que as tramas entrelaçadas cativem nossa expectativa. Apaixonada pelo amor, Emma tem uma imaginação fértil e romântica, mas tende a assumir demais e cometer erros por causa disso. Há também uma discussão interessante sobre papéis de gênero. Rica, herdeira e bem estabelecida, casamento para si mesma não é um tópico de interesse para Emma. Pelo contrário, a protagonista rejeita a possibilidade pela maior parte do livro. Enquanto isso, personagens secundárias como Jane (educada para ser governanta) e Harriet (pobre e de nascimento “incerto”) trazem contrapontos para a sua situação confortável. A dinâmica de Emma e Mr. Knightley a desafia e a incentiva a evoluir. Apesar da diferença de idade, é um romance agradável. Mr. Knightley é provavelmente o meu mocinho favorito da Austen.

Essa é a primeira vez que li Emma, embora a estrutura da narrativa me seja bastante familiar. Eu cresci assistindo “As Patricinhas de Beverly Hills”, da diretora Amy Heckerling. O filme é uma versão moderna (Fanfic Modern AU) de Emma. O que faz uma boa adaptação? Contar uma boa história ao mesmo tempo em que mantém a essência e o espírito do original? Se esse for o caso, “As Patricinhas de Beverly Hills” é uma adaptação perfeita. Há a protagonista esperta, mas sem noção; a comédia irônica resultante das intervenções de Emma/Cher; o romance que é uma surpresa não tão surpreendente assim e a amizade entre as garotas. Até mesmo o título original do filme (“Clueless”, algo como sem noção, no sentido de desatenta) é perfeito para Emma. Aliás, uma nova versão moderna de Emma poderia facilmente se chamar “A Shipper”. 4/5

28. Mars v. 05 – Fuyumi Soryo. Mars é a história de amor entre Kira, uma artista tímida, e Rei, um piloto inconsequente. Nas resenhas das edições anteriores, pontuei que a autora mescla romance, comédia e drama com naturalidade. Esse volume é um exemplo disso. A primeira metade explora o drama psicológico de Rei ([spoiler] por se culpar pelo suicídio de seu irmão gêmeo [/spoiler]). Já a segunda volta-se para Kira, com uma passagem divertida em que ela aprende a dirigir seguida pela exploração dos seus objetivos para o futuro. É nesse contexto que surge esta citação marcante:

“It’s a good painting. It’s unique and beautiful. But you sense that there’s something like pain within the beauty. The things that really shake the human soul aren’t beauty or kindness. Although such things are certainly moving, but those feelings don’t last long. But… Anger or sadness are different… They leave an indelible mark. Even after the wound heals… You can never forget the pain completely. Many people have felt that pain, but there are very few people who can express it.”

Mars está disponível em inglês no Prime Reading e no Kindle Unlimited.

29. “Vilão” – V. E. Schwab. Esse romance é uma subversão das histórias de super-heróis. Entretanto, não há nenhum herói nessa história, que está mais para uma disputa na Liga de Vilões.
De um lado, há o confronto iminente entre Victor e Eli, melhores amigos que se tornaram arqui-inimigos após fazerem o TCC em parceria (como geralmente acontece em trabalhos em grupo). Victor Vale é o típico super-vilão, obsessivo, cheio de manias, caricato. Já Eli é mais verossímil, arrogante e crente de que possui uma missão divina. Do outro lado, as irmãs Serena e Sydney. Serena é a personagem mais perigosa dentro de um elenco vilanesco. Os antagonistas foram a parte mais interessante da minha leitura de “Um tom mais escuro de magia”, da mesma autora. Eles tinham uma habilidade similar a de Serena: o controle mental. Embora tivessem um requinte há mais de crueldade, há algo de mais perturbador no poder de Serena. Ela não só é capaz de controlar as ações dos outros, como exerce controle sobre seus pensamentos também. A perda da autonomia é um tema muito bem explorado pela autora. Inclusive por meio de Sydney, uma garotinha inocente no meio da bagunça.
A escrita evoluiu ao longo do livro. Isso dito, Schwab cresceu bastante em suas obras posteriores e é nítido que esse foi o seu primeiro trabalho. Apesar disso, “Vilão” é uma leitura rápida e envolvente, perfeita para esse período de quarentena. 3,5

30. “De Gados e Homens” – Ana Paula Maia. Edgar Wilson, protagonista das histórias da Ana Paula Maia, representa os “trabalhadores esquecidos” do Brasil. Nessa novela, Edgar Wilson trabalha como abatedor em um matadouro, onde ganha centavos por cada vaca morta (o preço de um hambúrguer, pontua o livro, equivale ao que ganha por dez vacas abatidas). Seco, brutal e realista, “De Gados e Homens” é quase um ensaio a favor do vegetarianismo. Contudo, não é tão marcante quanto “Enterre seus Mortos” da mesma autora. 3/5

31. “Quebra de confiança” – Harlan Coben. No primeiro caso de Myron Bolitar, um empresário esportivo que atua como detetive por hobby, Coben explora como as carreiras de atletas famosos são priorizadas acima da vida e do bem-estar das mulheres que cruzam seus caminhos. Apesar do texto objetificar mulheres em algumas descrições, o livro aborda com respeito assuntos pesados como feminicídio, indústria do sexo e [spoiler] estupro coletivo [/spoiler]. Além disso, Myron, Win e Esperanza formam um trio perfeito. Como não adorar Myron, um detetive com o senso de humor de um tiozão progressista? 4/5

“Win e Myron voltaram ao escritório. Myron estava dolorido da surra, mas não havia quebrado nada. Sobreviveria. Ele era assim. Terrivelmente corajoso.

— Você está horrível – disse Esperanza.

— Você liga demais para as aparências.”

32. Princess Jellyfish v. 01 (versão 2 em 1) – Akiko Higashimura. Kuragehime, no original, é uma fusão de Betty, a Feia, RuPaul’s Drag Race e Aquarius. Esse é um mangá shoujo que namoro há anos e não consegui resistir quando encontrei o ebook em inglês em promoção na Amazon (ainda está saindo por R$3,90). Valeu a pena. Apesar da história de amor que foge aos moldes usuais ter me conquistado rapidamente, a minha parte favorita é a amizade entre as Amars (um grupinho de mulheres otakus) e Kuranosuke, uma travesti (no sentido de Drag Queen, crossdresser) efusiva e impulsiva, que acaba se tornando uma liderança informal do grupo.

A história começa com uma subversão do clássico “garoto encontra garota” quando Kuranosuke, em drag, ajuda Tsukimi a salvar uma água-viva e levá-la para a residência da moça, a república das Amars. Kuranosuke acaba passando a noite no local e é assim que se insere dentro do grupo que até então não aceitava fashionistas ou homens de qualquer tipo. As Amars são socialmente desajustadas, não transfóbicas. Da mesma maneira, enquanto num primeiro momento Princess Jellyfish parece se encaixar dentro do clichê da travesti ou mulher trans que se torna uma espécie de fada madrinha para a protagonista e suas amigas, transformando-as de “feias” para “princesas”, o papel de Kuranosuke na vida de Tsukimi e das Amars em geral é equivalente ao de Tamaki Suoh para Haruhi e o restante do Host Club em Colégio Ouran Host Club. Ele é o líder que convence o grupo a lutar para salvar a residência da demolição e tudo indica que também é quem as arrastará para as aventuras hilárias ao longo da história.

Por fim, Kuranosuke é uma personagem realista. O filho do presidente da Argentina, por exemplo, se encaixa em todos os requisitos: é filho de político, é uma travesti, se identifica como homem, é lindíssimo e é lindíssima, tem uma namorada e, o mais impressionante, é otaku. https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/2019/08/filho-de-candidato-a-presidencia-da-argentina-faz-sucesso-como-drag-queen =) 5/5

33. “Lendo de cabeça para baixo” – Jo Platt. Depois de ser abandonada no altar, Ros fica arrasada quando o vizinho atropela o seu porquinho-da-índia com um cortador de gramas. O livro começa bem, com situações engraçadas, mas perde a força à medida que a história vai avançando e deixando o humor de lado. Ainda assim, é um passatempo leve para a quarentena e agradeço a editora Rocco por ter disponibilizado o ebook gratuito. 3/5

34. Wotakoi – O amor é difícil para otakus v. 01 – Fujita. Esse mangá é uma comédia romântica centrada em um grupo de amigos otakus (como um The Big Bang Theory japonês). O ponto forte de Wotakoi é fugir do clichê do nerd socialmente desajustado, optando por focar em colegas de trabalho com hobbies em comum. O ponto fraco é o formato episódico: uma antologia de capítulos curtinhos, que podem ou não ser sequenciais. A Panini fez um bom trabalho editorial, com páginas coloridas e um brinde.

35. “Sal” – Letícia Wierzchowski. Algumas leituras precisam de paciência e de um tempo de digestão. Esse é o caso de “Sal”, um drama familiar multigeracional, tecido como uma tapeçaria pela matriarca da família. Confesso que me flagrei admirada pela estrutura da narrativa, com uma escrita poética avançando e voltando no tempo por meios de múltiplos pontos de vistas, experimentando com a linguagem, com as pessoas verbais e com o estilo. Contudo, se a forma é perfeita, o conteúdo enfraquece a partir da segunda parte. A primeira parte cria o cenário para a tão antecipada chegada de Julius, que mudaria para sempre o destino da família. Se até esse ponto a escrita é poética e detalhista, depois disso passa a ser resumida e deixar lacunas decepcionantes.

Spoilers & Problematizações

Por vezes, na tentativa de subverter estereótipos, a escrita acaba por reforçá-los. Esse é um problema recorrente em Sal:

  • Ernesto, a única personagem negra, é também a mais inteligente da história. Entretanto, o primeiro ponto de vista em que a personagem aparece é de um racista, o que resulta nele sendo comparado com um “bicho” várias vezes logo na primeira descrição. Sem falar que a cor que designa o ponto de vista da personagem é o “preto”. Baita bola fora.
  • Uma das filhas mulheres, Eva, possuí poucos pontos de vistas na história. O primeiro a constrói como a “Lilith”: a vilã da narrativa construída pela irmã e pela mãe, uma mulher má, capaz de soltar “demônios” pelo mundo. Apesar da própria Eva se colocar como “empoderada” e como a filha que ficou ao lado da mãe até o fim, a narrativa constantemente a vilaniza. É um problema do subtexto, mas durante uma boa parte da narrativa achei que Eva deliberadamente havia transmitido AIDS para Julius, com o intuito de atingir Flora ou Orfeu. Algumas passagens me levaram a pensar isso: logo no início do livro, a avó de Eva usou o próprio sangue infectado para causar a morte das inimizades; único POV da Eva na primeira parte focou na mitológica Lilith gerar demônios; além de toda a descrição negativa em torno da noite entre Eva e Julius, a condenando e a culpando. O final da personagem sugerir que ela engravidou naquele momento é, francamente, revoltante. Eva é a única que continuou visitando a mãe, mas ainda recebeu o desprezo materno no final.
  • A trágica história de amor gay. O clichê dos clichês. Ou, como diria o TV Tropes, “Bury Your Gays” (enterre os seus gays, ou bissexuais, no caso de Julius). Recomendo esta resenha no GoodReads para uma opinião mais negativa do que a minha. A autora da resenha levanta bons pontos. Minha interpretação é um pouco diferente. Orfeu, o filho gay e rebelde, é a personagem mais interessante e o livro sabe muito bem disso. Desde Flora, a filha escritora, usando Orfeu como inspiração para a personagem de seu romance à chegada de Julius à busca de Tiberius pelo irmão: “Sal” gira em torno de Orfeu. Isso fica claro da segunda parte em diante, quando todas as outras tramas e o realismo mágico são deixados de lado em prol do romance trágico. No seu cerne, o livro é sobre uma mãe que espera pela volta do filho. Apesar de “Sal” nos dizer que Cecília espera por Tiberius, a partir do momento em que o livro também nos diz que a própria Cecília enviou Tiberius atrás do irmão, fica claro que quem ela realmente queria de volta é o rebelde Orfeu.
  • Além disso, por mais que Cecília odeie Julius e considere que lhe roubou três filhos, a única coisa que recebeu foco é a partida de Orfeu. Ok, Orfeu roubou o amado de Flora e isso supostamente levou a irmã ao suicídio – mas esse acontecimento foi tratado com descaso. Flora perdeu importância dentro da narrativa quando cumpriu o seu propósito de atrair Julius até a ilha, para que este pudesse conhecer Orfeu. Seus sentimentos e ações ficaram em terceiro plano a partir desse momento. A morte do pai ficou vaga até o fim, e ainda foi descrita como libertadora para o(s) filho(s). Eva, essa sim foi tão – ou mais – responsabilizada do que Julius. Ela transar com o namorado do irmão fez com que Orfeu decidisse fugir com ele.  E entro novamente no ponto da responsabilização, o livro julga menos Julius por ter se envolvido com Orfeu, Flora e Eva, do que pelo seu papel em ter “destruído a família” levando Orfeu embora. Por isso, embora entenda a interpretação da resenha, não vejo uma culpabilização de Orfeu por ter destruído a família, mas sim um fascínio com a tragédia… Ainda assim, a história de amor entre Julius e Orfeu é descrita de maneira positiva e poética até…
  • A AIDS que surge de forma espontânea e mágica. O livro é de 2013, como é possível que reforce um preconceito absurdo da década de 1980, quando se passa a história?

Isso dito, “Sal” renderia uma adaptação para novela ou minissérie que eu devoraria sem hesitar. Se consertasse os problemas listados acima e contasse com uma bela fotografia, para fazer jus a linguagem poética do livro, provavelmente resultaria numa novela inesquecível. 3/5

36. “Even So, I Will Love You Tenderly” v. único – Kou Yoneda. História de amor fofinha com a arte lindíssima e elegante da Yoneda ❤

Yoneda Kou

ESSA ARTE É LINDIMAIS, AFF

37. “Em defesa de Jacob” – William Landay. Nesse drama jurídico, a vida de um promotor muda drasticamente quando o seu filho adolescente é acusado de matar um colega de escola. A (ex) profissão do protagonista Andy Barber permite explorar os “dois” lados do sistema de justiça, pontuando sobre as falhas do sistema. A ambiguidade favorece o livro tematicamente: é possível chegar a um veredicto num julgamento, mas não necessariamente na verdade. Além disso, o título é perfeito – obviamente é sobre a defesa jurídica de Jacob, mas também é sobre Andy defendendo o filho – tanto para o leitor, quanto para si mesmo. 3,5/5

38. Demon from afar v. 01 – Kaori Yuki. Um prelúdio para uma história maior, esse primeiro volume começa com uma trama bobinha, um triângulo amoroso e um vilão caricato. Todos esses elementos são brutalmente destruídos ao longo do volume – dando lugar ao horror gótico e elegante característico da mangaká.

39. “What did you eat yesterday?” v. 01 – Fumi Yoshinaga. Um slice of life sobre um casal gay. Não tenho muita paciência para slices of life, de modo geral, mas essa é uma obra famosa de uma mangaká consagrada. Fumi Yoshinaga consegue levantar discussões importantes numa história episódica, guiada por receitas (por que o colega de trabalho pode falar abertamente sobre a esposa e os filhos, mas ele tinha que ser discreto? Um dos protagonistas pergunta para o namorado).

Definitivamente leria mais trabalhos da autora.

40, 41 & 42. Black Bird, v. 16, 17 e 18 – Kanoko Sakurakouji. Eu comecei a ler Black Bird ainda na adolescência (naquele período saudoso em que mangá custava apenas R$10,90), termino quase 10 anos depois, quando já sou adulta. Nessas enrolações da vida, o mangá ficou um bom tempo guardado na estante. Revisitar uma obra queridinha do passado sempre coloca o nosso próprio gosto em questão, mas não precisava me preocupar. A minha avaliação é a mesma: Kanoko Sakurakouji é uma autora cheia de potencial e isso é visível na evolução da narrativa de Black Bird.

Black Bird é um shoujo sobrenatural e um romance dramático entre uma humana e uma ayakashi (uma criatura folclórica japonesa). A humana Misao é o “fruto da imortalidade”, que traria grandes poderes e prosperidade para o clã da ayakashi que a devorasse ou a tomasse como esposa. O diferencial de Black Bird para as outras obras com a mesma premissa é sempre levar em consideração as disputas políticas em torno da conquista e da posse do fruto da imortalidade.

Nesses volumes finais, a autora discute aborto dentro de uma perspectiva realista (aborto é legalizado no Japão e Misao ainda é adolescente) e de uma mágica (“os frutos da imortalidade” do passado morreram no parto, mas a escolha da protagonista é pragmática. O grande acerto desse arco é o poder de escolha de Misao, a cena em que ela percebe que tinha muito mais coisa em jogo do que o seu bem-estar é excelente). Outro acerto é a opção da autora por um arco final “pé no chão”, centrado no casal protagonista, ao invés de algo grandioso.

Spoilers & Comparações

No penúltimo arco, Black Bird entregou uma guerra com tensão, emoção e estacas intensas que valorizavam as amizades. Na época, não resisti a comparar com as guerras chatíssimas que Naruto e Bleach entregavam em simultâneo. Não resisti a comparar o final também. A escala menor beneficiou o desenvolvimento da protagonista. Além disso, a “próxima geração” cumpriu uma função dentro do final das personagens que acompanhamos, ao invés de ofuscá-los. Teve filho quem fazia sentido que tivesse, com a maioria recebendo finais condizentes com a sua história (como Zenki se tornar diretor do orfanato). Houve consequências reais – físicas e emocionais – para as escolhas das personagens. Só apareceu no capítulo final quem realmente importava. Se o capítulo final perdeu um pouco da emoção pela opção de colocar outra personagem para narrar e por avançar e voltar no tempo, Sakurakouji mais do que compensou com o capítulo extra “Life”, que serviu de intermediário entre as duas linhas do tempo.

Honestamente, Kanoko Sakurakouji mais do que sambou na cara de Kishimoto, Kubo e tantos outros autores de shounen famosos.

43. “Circe” – Madeline Miller. Esse romance reconta, sob o seu ponto de vista, a história da bruxa mitológica que transformava homens em porcos. A musicalidade do estilo da autora casa perfeitamente com a narrativa. Apesar disso, “Circe” não romantiza o material de origem. A crueldade e a violência dos heróis, dos monstros e dos deuses gregos estão presentes no livro. Violência que se assemelha a dos homens especialmente em relação às mulheres (TW: estupro). Entre a compaixão e a fúria, a protagonista nos lembra do porque das bruxas e feiticeiras serem ao mesmo tempo tão perseguidas quanto memoráveis. Elas são mulheres fortes, unidas e senhoras de si. 5/5

44 & 45. Mars v. 06 e 07 – Fuyumi Soryo. Esses dois volumes apresentaram um mini-arco em que as protagonistas se viram diante da “sombra” (aquela personagem cuja função é refletir os seus lados sombrios e piores defeitos). Comentei na minha resenha de “Em Defesa de Jacob” que o objetivo do livro era a ambiguidade. Por causa disso, o livro tocou em temas espinhosos, mas saiu correndo na outra direção. Mars abraçou esses temas e os discutiu com profundidade.

As semelhanças, num primeiro momento, são óbvias. Spoilers de ambos a seguir. Jacob era alvo de bullying e supostamente matou o seu agressor. Esse bullying era enraizado em homofobia *e, apesar dos testemunhos tentarem diminuir, no mínimo era um assédio sexual pesado*. O suposto assassino e a vítima eram adolescentes. Mas, no fim, não era a proposta do livro discutir nada disso. Jacob foi estabelecido como hétero e pouco importava se era um adolescente, se matou alguém, é porque era perturbado, tinha o gene da maldade, e o pobre coitado do bully foi mexer com o “esquisito” errado.

Fuyumi Soryo, em 1998, pegou essa mesma premissa e a explorou ao máximo. Vítima e assassino também eram adolescentes. Masao foi vítima de um crime de ódio horrível, espancado até quase morrer por uma gangue. Alguns meses depois, matou o líder dessa gangue, que era um colega de escola e um “amigo de infância” (que praticava bullying contra ele há anos). As cicatrizes deixadas pelo ataque marcaram todo o seu corpo. Ao levantar a discussão da sexualidade da personagem, o mangá o fez com responsabilidade social, estabelecendo que sim, Masao era bi. O preconceito era o motivo do bullying. Igualmente importante, talvez, porque também era afeminado e, por conta disso, considerado um alvo fácil.

Homofobia e machismo costumam andar de mãos dadas.

Eu acho que é muito fácil rotular de “monstro” um adolescente que fez algo horrível – pois, nesse caso, o problema estaria na natureza da pessoa. Não na sociedade, no ambiente social ou na criação. Da mesma maneira, eu compreendo a tentação das fantasias vingativas que pipocaram aos montes nos últimos tempos. A catarse em se vingar do abusador. Ainda assim, prefiro a abordagem de Fuyumi Soryo nesses dois volumes. O que acontece quando se decide que uma vida “não vale a pena”? Você passaria a encarar as outras vidas do mesmo jeito? O que isso faria contigo? Da mesma maneira, pode se julgar completamente o assassino quando você não sabe o que faria se estivesse na mesma situação? No fim, a conclusão é que não há respostas fáceis. 5/5

46. “Arsène Lupin: ladrão de casaca” – Maurice Leblanc. Antologia de contos reunindo as primeiras aventuras do famoso ladrão Arsène Lupin. O estilo dos mistérios lembra bastante Sherlock Holmes. Nada mais justo do que o grande ladrão da literatura ser francês, já que o grande detetive é inglês. Uma rivalidade que, pelo jeito, está presente nas histórias de Lupin (com seu rival Herlock Sholmes!). Como costuma acontecer nas antologias, há um misto de contos interessantes com uns chatinhos. 3/5

47. Rosa de Versalhes v.03 – Riyoko Ikeda. Nesse volume, o protagonismo de Oscar é sedimentado, a Revolução Francesa se aproxima e a história entra na sua metade final. O traço de Ikeda evoluiu bastante desde o primeiro volume, particularmente com relação a Oscar, linda em todas as suas aparições.

Rosa de Versalhes

Eu compreendo porque Oscar é uma personagem tão icônica no Japão, na França e na Itália. Muito mais do que uma badass com uma espada, ela é uma heroína honrada, que questiona papéis de gênero e tem um dilema interessante entre os seus deveres/honra e os seus ideais. Ela casa perfeitamente com a Segunda Onda do Feminismo e provavelmente fez várias leitoras refletirem sobre a própria sexualidade. Não consigo dizer o mesmo sobre André. [Spoiler] Não matar e não estuprar a amada (ou qualquer mulher) é uma obrigação. A partir do momento em que ele cogitou fazer as duas coisas, é impossível comprar a devoção que sente por ela. Realmente não entendo porque ele é tão popular. [/spoiler]

Eu gosto bastante desse formato big. A qualidade física da edição é inegável e o custo benefício (com a ajuda de descontos) é bacana. Contudo, eu esperaria que um clássico tivesse mais cuidado no acabamento. Sendo sincera, no mínimo que tivesse um apelo para exibir na estante. Essa capa de sabonete foi um vacilo imperdoável da editora JBC.

48. “Os pescadores” – Chigozie Obioma.  “Os pescadores” é um drama familiar que se passa na Nigéria da década de 1990. Uma profecia indica que o primogênito morreria pelas mãos de um dos irmãos, dando início a sucessivas tragédias na família. [Spoiler] Por precaução, aviso que há tudo de horrível que puder imaginar. [/spoiler] A primeira metade é fraca, sem muita emoção, mas a segunda é uma melancólica e devastadora história. 3/5

“A esperança era um girino: uma coisa que você pegava e levava para casa numa lata, mas que logo morria, apesar de estar na água certa.”

49. “Vermelho, branco e sangue azul” – Casey McQuiston. Nesses tempos sombrios, uma romcom escapista é muito bem-vinda. Da trilogia “Bridget Jones” a “Leah fora de sintonia”, eu adoro uma comédia romântica engraçada, esperançosa e fantasiosa sem perder completamente a noção da realidade. Esse é o caso desse livro. A premissa é a seguinte: o filho da presidenta dos EUA e o caçula da família real britânica causam um incidente diplomático hilário e, por conta disso, são forçados a fingir que são melhores amigos. Mais do que isso seria inaceitável, na teoria, e é aí que entra a habilidade de McQuiston em não perder de vista os dramas individuais e a repercussão da sexualidade das personagens (Alex é bi, Henry é gay). Além disso, o timing cômico de Casey McQuiston é excelente:

“você tem muitas pintas, ele manda, junto com uma foto da matéria. É culpa da endogamia?”

Citação para recordar:

“[…] Alex começa a ver algumas falhas na sua lógica. Pessoas heterossexuais, pensa ele, provavelmente não passam tanto tempo tentando se convencer de que são heterossexuais.”

Recomendo. 4/5

50. Slam Dunk v. 08 – Takehiko Inoue. Na falta do futebolzinho de domingo, li um mangá sobre basquete. Slam Dunk é engraçado, carismático e captura com certo nível de realismo a emoção de acompanhar um evento esportivo. Esse clássico dos mangás esportivos envelheceu muito bem.

51. “O Vilarejo” – Raphael Montes. Uma antologia de contos de terror interconectados. Eu gostei da premissa, mas não da execução. As personagens são fracas; a escrita aposta no gore e na brutalidade para gerar o horror, ao invés do suspense; e me incomodou muito como as personagens negras são retratadas. Ainda mais quando se considera qual era a mensagem final do livro (esse último conto é o único que me faria ler outra obra do autor). TW: Tudo que puder imaginar. 2/5

52. “Laurie” – Stephen King. Um conto sobre um viúvo e uma cachorrinha. King é o mestre do terror, mas, como mostra esse conto, a sua verdadeira força reside na construção das personagens. Disponível gratuitamente em inglês no site do autor. 4/5

53. “Kindred – Laços de Sangue” – Octavia E. Butler. Dana, uma afro-americana de 1976, viaja no tempo para o início do século XIX, onde o seu destino está entrelaçado com os seus antepassados – um fazendeiro branco escravagista e a mulher negra escravizada e violentada por ele. Essa é um romance fascinante, triste e tenso para pensar a história da escravidão nos EUA, no Brasil e no mundo. “Democracia racial” é um mito.

Como pensa Dana, essa era uma época em que negros eram considerados subhumanos e mulheres vistas como incapazes. O “senhor” poderia fazer o que bem entendesse com a sua propriedade. Espancar, violentar, vender. Um dos grandes acertos do livro é ver a “humanidade” nos desprezíveis donos de escravos. Como pontua o livro, pessoas comuns – e brancas – que cometeram atrocidades dentro do escopo da legalidade.

Contudo, tão importante quanto compreender as semelhanças entre Brasil e EUA é entender as diferenças. Não havia um “Norte livre” para o qual fugir no Brasil. O lugar de resistência contra a escravidão pertencia aos quilombos. Em 1976, ano da história, o Brasil vivia uma Ditadura Militar. O movimento negro que ganhava força nos EUA, no Brasil era silenciado pelas repressões. Enquanto Butler abordava diretamente a escravidão em seus textos, a ditadura proibia que novelas (protagonizadas por brancos, é claro) mencionassem a palavra “escravo”.

Além disso, a publicação da autora em si é um exemplo do racismo estrutural. Levou 40 anos para a obra de Octavia E. Butler, a grande dama da ficção científica, chegar ao Brasil. Mesmo que os seus livros dialogassem muito mais com o nosso país do que uma boa parte da ficção científica produzida por homens brancos. 5/5

54 & 55. Nodame Cantabile v.01 e 02 – Tomoko Ninomiya. Chiaki é sistemático (chato e babaca), Nodame é desleixada (porca e parasita). Mais do que uma história de amor, Nodame é um charmoso mangá josei sobre estudantes universitários de música clássica. O mangá tende mais para a comédia em si do que para a comédia romântica. Além disso, o anime é a melhor versão dessa história – não só a trilha sonora é impecável (perfeita para um musical), como a animação trouxe interpretações vívidas para cada uma das músicas. 5/5 Obs.: Milch é uma personagem que envelheceu muito mal, essas piadinhas com assédio sexual são inaceitáveis hoje.

56. “Aranha, a artista” – Nnedi Okorafor. Um conto de uma autora premiada pelas maiores premiações de ficção científica norte-americana, o Hugo e o Nebula. Esse conto explora temas como violência doméstica; colonialismo moderno; a exploração dos recursos naturais da África pelas potências ocidentais e como isso prejudica a população local; e, principalmente, a relação entre uma humana e uma máquina conectadas pela música. 4/5

57. “Dentro do bosque” – Ryunosuke Akutagawa. Um conto policial que intercala múltiplos depoimentos sobre um assassinato. Akutagawa é um importante escritor do início do séc.XX no Japão, dando nome a maior premiação literária japonesa. Eu não gostei nenhum pouco desse conto, a forma como lida com estupro (insinuando que a mulher se apaixonou pelo estuprador) é francamente nojenta. 1/5

58. “Baratas” – Jo Nesbø. Um embaixador da Noruega é encontrado morto em um hotel de reputação duvidosa em Bangkok e o detetive Harry Hole é convocado para resolver o caso. Apesar da premissa interessante, a história é apenas ok. Eu descobri a identidade do assassino faltando 25% do livro. A melhor parte é o protagonista, “babaca com um coração de ouro”, Harry Hole é divertido, complexo e me manteve envolvida com a história até o fim. 3/5

59. Batwoman v. 02 – Marguerite Bennett, Fernando Blanco e John Rauch. No Renascimento da DC, a Batwoman enfrenta Os Muitos Braços da Morte, um grupo terrorista liderado pela sua ex-namorada Safiyah. A história alterna entre o presente e o passado de Kate Kane, a Batwoman, montando o quebra-cabeça da trama aos poucos. No mês do Orgulho LGBTQIA+, nada melhor do que ler uma super-heroína lésbica icônica. Eu gostei mais do segundo volume do que do primeiro, o desenvolvimento da trama é melhor, a história é mais clara e a sequência contra o Espantalho ficou muito legal: “Meus piores medos… Já se realizaram. E eu superei.”.

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Indireta para a CW.

Eu espero que a CW volte atrás da decisão de substituir a Kate na série Batwoman por uma personagem original. Kate Kane é icônica por todo o seu conjunto: o design maravilhoso em preto e vermelho; a personalidade (pragmática e sarcástica); as semelhanças e as diferenças do Batman (Bruce teme o seu lado sombrio, Kate o abraça); as muitas pares românticas (e ex infernais); os tormentos (tão bem trabalhados nesse volume 2) e também por ser uma heroína lésbica e judia. Mas, se a adaptação falhar, há sempre o original. Um acerto da DC Comics. #KateKaneIsBatwoman

60. “A vida invisível de Eurídice Gusmão” – Martha Batalha. No prefácio do livro, a escritora revela que o seu objetivo era retratar a “história da minha avó e da sua” por meio das irmãs Eurídice e Guida. Em Eurídice, há a mulher que arranjou um “bom marido” e teve todas as suas aspirações sufocadas. Em Guida, há a mãe solteira e trabalhadora, se desdobrando para garantir o sustento do filho. Eu demorei para me acostumar com o estilo da narrativa, que constantemente entrava em tangentes sobre todas as personagens mencionadas. Contudo, o estilo acabou me conquistando, pois penso que seria assim que uma avó contaria a sua história – entrelaçada com a comunidade do bairro. 4/5

“Antenor tinha o trabalho, Das Dores tinha a faxina, os filhos tinham a vida toda. E Eurídice, o que tinha?”

61. Given v.01 – Natsuki Kizu. O guitarrista Uenoyama encontra um colega de escola, Mafuyu, abraçado a uma guitarra com as cordas arrebentadas. Ele o ajuda a trocá-las e acaba recebendo um pedido para dar aulas de música. Esse é o ponto de partida para um romance fofinho, com personagens carismáticas e uma trama que gira em torno de uma banda amadora. Particularmente, adorei os elementos musicais e a atenção da mangaká para os detalhes (como as marcas dos instrumentos, Gibson, Telecaster, etc.). A adaptação para anime de Given fez muito sucesso no ano passado, saindo do nicho e alcançando um público considerável. Agora o mangá chega ao Brasil com uma edição caprichada da editora Newpop. Minha única ressalva é a sobrecapa, um item inútil que só serve para encarecer o produto. 5/5

62. “Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois” – João W. Nery. Essa é a autobiografia de João W. Nery, que ficou conhecido como o primeiro homem trans a ser operado no Brasil. As suas memórias passam pela infância, com a disforia, as confusões e as angústias; pela vida adulta e pelos processos de autodescoberta e de autoafirmação, com a cirurgia (durante a Ditadura Militar, quando era proibido); pelas rejeições e pelas dificuldades posteriormente; e, também, pelas suas conquistas e pela sua experiência na paternidade.

Eu escolhi “Viagem solitária” como a minha principal leitura para o #mesdoorgulholgbt porque queria sair da minha zona de conforto e seguir o espírito da data – ativismo, resistência, reflexão e aprendizado. A minha posição, mais do que nunca, é defender a autonomia de todos sobre os seus corpos e sobre as suas identidades.

“Enquanto esperávamos a saída do ônibus, enxerguei então o absurdo de toda a situação: estava completamente na mão dos outros. O problema era meu; quem sofria e sabia do que se passava dentro de mim era eu. No entanto, era uma equipe multidisciplinar “especializada” que decidiria o que eu era, como me sentia, qual a melhor solução para a minha vida. Sem qualquer liberdade de escolha e ainda dando graças a Deus por existir uma saída!”

João W. Nery deu nome a um projeto de lei, arquivado pela Câmara. Contudo, a principal demanda do projeto foi atendida pelo STF em 2018, com o direito ao nome social. Uma vitória importantíssima do Movimento LGBTQ+. João faleceu em 2018, aos 68 anos, sete anos após a publicação deste livro.

63. “It – A Coisa” – Stephen King. Em 1958, liderados por Bill, Richie, Beverly, Ben, Eddie, Stan e Mike enfrentam um monstro responsável pelo assassinato de várias crianças, incluindo o irmãozinho de Bill. Em 1985, Mike Hanlon reúne novamente o grupo após uma nova onda de assassinatos sucederem um terrível crime de ódio. It é tanto uma história sobre esse grupo de amigos quanto sobre os horrores escondidos no passado de uma cidade pequena. Derry tem um passado violento, trágico e marcado pela negação histórica.

Superficialmente, a Coisa é a manifestação dos medos da infância. Implicitamente, é uma representação dos horrores reais: assassinatos em massa, abusos sexuais e psicológicos, violência doméstica, os crimes de ódio, o racismo, a misoginia, a homofobia e a indiferença do silêncio. King aborda racismo com maestria, misoginia também (pré-ato final), embora acabe mais reproduzindo do que combatendo a homofobia. Uma pena, considerando que o crime de ódio que abre esse livro – o assassinato violento de um rapaz gay – foi baseado em um caso real.

Por mais que uma narrativa consiga se equilibrar entre várias personagens principais, invariavelmente alguma ocupará o papel de protagonista. No caso de It, duas personagens ocupam esse espaço – Bill e Mike. Bill carrega o enredo “superficial”, por assim dizer, enquanto Mike é o principal responsável pela discussão temática implícita do livro. É por meio dos capítulos de Mike que aprendemos sobre a história de Derry. Inclusive, o clímax do livro*** decepciona justamente por abandonar esses temas [spoiler] junto com Mike no hospital [/spoiler]. 3/5

*** O clímax é muito, muito, muito ruim. A mitologia é exagerada e ridícula, a batalha final é tosca, a resolução para vencer a Coisa é superficial e infantil (o que não funciona na versão adulta). Para piorar… O livro, que até então construía boas personagens femininas, recorre a uma fantasia machista em que a única mulher do grupo é usada como uma boneca sexual inflável. ***

Mini-comentários com spoilers:

  1. A adaptação perfeita de It seria uma série de 13 episódios feita pelo Ryan Murphy.
  2. Suspeito fortemente que nenhuma das adaptações conseguiu fazer um bom trabalho com as versões adultas porque ambas apagaram o protagonismo do Mike. Racismo numa história sobre racismo!
  3. O capítulo do Black Spot é maravilhoso e merecia um episódio só para si. Will Hanlon entrou pra minha listinha de personagens favoritas. Você sabe que está ficando velha quando o seu personagem favorito é um dos pais.
  4. A homofobia em It é uma discussão complexa, que exigiria um espaço que não tenho aqui – e é melhor para um grupo de discussão do que para uma análise individual.
  5. Quem é o pai dos filhotes da Coisa? Ou foi reprodução assexuada? Considerando que a Coisa é fêmea, será que um dia Pennywise será finalmente interpretado por uma mulher?

64. Nodame Cantabile v.03 – Tomoko Ninomiya. As piadinhas com assédio sexual continuam a me incomodar, particularmente a descrição do personagem Milch brincar com isso (como se fosse engraçado e fofo ele ser um assediador). Isso dito, gosto de como a autora desenvolve o Chiaki. O protagonista erra bastante, tem momentos de babaquice, mas também reflete sobre os seus erros, se arrepende, aprende com eles, busca consertá-los e se torna uma pessoa melhor no processo.

65. “A vida que ninguém vê” – Eliane Brum. Esse livro reúne as crônicas-reportagens publicadas originalmente na coluna da jornalista no jornal Zero Hora. Com muita sensibilidade e empatia, Eliane Brum lança seu olhar para as vidas anônimas de Porto Alegre, percebendo a grandeza por trás de cada uma. Entre tantas histórias tocantes, lembrei da abertura de “Teorias do Jornalismo”, de Nelson Traquina: jornalismo é a vida em todas as suas dimensões. Esse pequeno livro segue essa máxima e, por isso mesmo, é gigantesco. O jornalismo no seu melhor. 5/5

66. Dragon Ball (Edição Definitiva) v. 01 – Akira Toriyama. Como eu resumiria se esse fosse o meu primeiro contato com DB? “Esse mangá segue as hilárias aventuras do matuto Son Goku e da jovem cientista Bulma, enquanto procuram pelas lendárias esferas do dragão – que, quando reunidas, concedem um desejo. É realmente engraçado, mas será que tem história para durar mais de 40 volumes?” Ou: desconfie das primeiras impressões.

Akira Toriyama criou a fórmula dos mangás shounens de lutinha por acidente. Se já leu ou assistiu algum, conhece a fórmula. Antes do enredo começar de fato, há pequenas sagas introduzindo as personagens, os cenários e as situações. É uma fórmula efetiva porque é durante esse ponto que as conexões com as personagens principais são fortalecidas. Além disso, é muito mais fácil abandonar tramas e personagens sem muito potencial quanto estes ainda não estão ligados ao enredo principal.

Dragon Ball é um mangá clássico: influenciou outras obras estruturalmente e resistiu à força do tempo. Lançado em 1984, o traço não é datado, continua bonito e é mais trabalhado do que a maioria dos shounens da JUMP no comecinho (Toriyama já era um artista experiente). Ainda é engraçado e carismático, com uma trama simples e eficiente. Mesmo o fanservice (que foi descartado posteriormente) incomoda menos do que em obras mais atuais (em parte porque é mais usado para o humor do que para reduzir a heroína a isso, em 90% do tempo Bulma usa roupas práticas e criativas).

A qualidade gráfica da edição definitiva da Panini é impecável. É um material bonito, para exibir na estante. Eu prefiro o papel amarelo utilizado em Rosa de Versalhes, mais agradável para ler, mas imagino que esse papel branco (e com muito reflexo) foi escolhido por conta das muitas páginas coloridas. Contudo, senti falta de um posfácio como os de Rosa, discutindo a importância da obra e as suas principais influências (como Jornada para o Oeste e outras lendas). 

67. “Pequenos incêndios por toda parte” – Celeste Ng. O incêndio de uma casa, com todos certos de que fora causado pela filha caçula, é o ponto de partida dessa história – que volta no tempo para mostrar a sucessão de acontecimentos que levaram para aquele ponto. As várias tramas intercaladas contrapõem a família Richardson, principalmente a matriarca Elena, com Mia Warren e sua filha Pearl, enquanto as duas famílias tomam partido numa disputa judicial entre a mãe biológica (uma chinesa pobre) e os pais adotivos (brancos ricos) pela guarda de uma bebê.

Esse romance constrói uma situação em que todas as motivações são compreensíveis e nem sempre há uma resposta fácil. Além disso, aborda maternidade, especialmente mães e filhas, e relações raciais, de gênero e de classe social de forma complexa e plural. Contudo, a amplitude do número de personagens e de tramas resulta em situações resumidas e momentos em que mais é “contado do que mostrado” descumprindo aquela regrinha básica da storytelling de “mostre, não diga” e se tornando cansativo. Acaba sendo quase como um ótimo “Argumento” para um roteiro.

Eu li e assisti a bela adaptação para minissérie simultaneamente. A série soube aproveitar muito bem o material original, potencializando e desenvolvendo as tramas, escolhendo quais detalhes poderiam render muito mais e quais poderiam ser modificados para acrescentar mais conflitos. Duas escolhas, em particular, a enriqueceram: a visão mais explicitamente crítica da família Richardson, branca e rica; e uma nova trama pessoal para Izzy, a filha caçula que aparentemente incendiara a casa. No livro, a construção de Izzy é quase de uma salvadora branca, [spoiler] se vingando em nome das pessoinhas negras indefesas [/spoiler]. Enquanto na série, Izzy é uma personagem fascinante, com uma boa exploração da sexualidade, da rejeição e da opressão familiar. Suas motivações são críveis e tristes.

No fim das contas, tanto no livro quanto na série, esse é um drama familiar sobre como pequenos incêndios por toda parte podem destruir os alicerces de uma casa. 3,5/5 (pro livro, pra série 5/5)

68, 69 & 70. Mars v. 08, 09 e 10 – Fuyumi Soryo. O volume 08 explorou o passado trágico de Kira e os danos psicológicos escondidos por trás da sua fachada quieta e triste, deixados pelas cicatrizes [spoiler] do estupro [/spoiler]. Rei e os amigos de Kira reagiram à revelação com boas intenções, embora nem sempre da maneira ideal (eles são, afinal, adolescentes). No volume 09, a mãe da mocinha escolheu o casamento – com o estuprador – ao invés da filha. Em um primeiro momento, Kira cedeu e aceitou o arrependimento do padrasto, mas logo ficou óbvio que a convivência seria impossível. Ela fugiu de casa e foi morar com Rei, carregando consigo apenas a roupa do corpo.

Mars

A cena de sexo entre os namorados, abertura do volume 10, é uma das mais belas dos mangás. Fuyumi Soryo construiu esse momento como empoderamento e libertação da mocinha, o que funcionou muito bem. Todo o volume serviu como a primavera depois do inverno. As personagens receberam a solidariedade dos amigos e dos vizinhos e fizeram planos para o futuro. A mangaká foi realista ao retratar as privações financeiras do casal, os sacrifícios necessários e o abandono da escola por um emprego. Não será uma vida fácil, mas para a mocinha, significará o mundo. 5/5

71. “Fragmentados” – Neal Shusterman. Em um mundo distópico pós-guerra entre “pró-vida” e “pró-escolha”, os pais podem escolher “fragmentar” os filhos entre os 13 e os 18 anos, abortando-os retroativamente. Os protagonistas Connor, Risa e Lev são adolescentes que receberam a ordem de fragmentação.

A partir desse ponto, a história segue por um caminho bastante original, recusando-se a seguir uma narrativa clichê do “escolhido” e buscando uma visão de movimento coletivista. As personagens são bem desenvolvidas, especialmente Lev, que possui o melhor diálogo do livro:

[spoiler] — O que você fez, Lev… confundiu as pessoas. Ninguém sabe se você é um monstro ou um herói.

O menino pensa nisso.

— Existe uma terceira opção? [/spoiler]

Tematicamente, o autor escolheu (ha) a ambigüidade. As discussões sobre aborto e autonomia corporal perpassam toda a história, com diálogos e situações que lidam direta e indiretamente com os temas. Imagino que isso possa incomodar alguns leitores, mas particularmente gostei de como o livro leva o debate ao extremo do campo ético filosófico e possibilita múltiplas interpretações. Eu terminei a leitura com a minha posição intacta. No final das contas, a “terceira opção” seria essencialmente deixar que as pessoais fizessem as próprias escolhas.  4/5

72. “Os sete maridos de Evelyn Hugo” – Taylor Jenkins Reid. A repórter Monique Grant é escolhida para entrevistar a famosa atriz Evelyn Hugo, notória por seus sete casamentos. Contudo, o que Evelyn realmente deseja é que Monique escreva a sua biografia. O porquê da escolha de uma jornalista inexperiente é um mistério que permeia toda a narrativa, mesclando-se com a história da atriz.

Apesar de ser em primeira pessoa, as personalidades distintas evitam qualquer confusão entre os pontos de vista. Outra coisa que eu adorei é como a autora usa trechos de “notícias” de tabloides para mostrar como a mídia divulgou, distorceu e comprou versões oficiais sobre os eventos narrados.

Eu me identifiquei com a jornalista insegura diante de um trabalho tão importante. Mas o charme da história é a inesquecível Evelyn Hugo. Egoísta, determinada, calculista, durona, impiedosa e cheia de compaixão – Evelyn é um poço de contradições fascinantes.  Nem boa nem ruim, a personagem é profundamente humana, ao mesmo tempo em que é icônica. Mulher, bissexual e de origem cubana, Evelyn Hugo sofreu com o pior do machismo da indústria hollywoodiana, mas também o usou como uma ferramenta para emplacar a carreira.

A abordagem dos relacionamentos é outro ponto digno de nota. “[…] não fiquei com o coração partido. Simplesmente senti que meu casamento tinha fracassado. E são duas coisas bem diferentes.” Às vezes as partes boas compensam pelas ruins. Contudo, quando isso não acontece, nem sempre vale à pena insistir. Talvez porque é abusivo, ou mesmo decepcionante, ou simplesmente porque a chama se apagara há muito tempo. Numa época em que imperam fantasias vingativas, é bom encontrar uma mensagem tão singela e poderosa ao mesmo tempo: você pode ir embora. 5/5

73. “Sete monstros brasileiros” – Braulio Tavares. Essa antologia tem a proposta de retratar um monstro diferente do folclore brasileiro em cada conto. Eu gostei bastante dessa proposta de valorizar o folclore nacional e considero que o autor fez um bom trabalho com os monstros que eu já conhecia (basicamente só dois). É um livro curtinho, menos de 100 páginas. Outro ponto positivo é fugir do eixo Rio-São Paulo. Recomendo para fãs de terror com uma pegada brasileira. 3/5

74. “Desconstruindo Una” – Una. Quadrinho e ensaio autobiográfico, “Desconstruindo Una” é uma reflexão sobre a violência contra a mulher. Quando tinha dez anos, Una foi atacada por um homem. A menina conseguiu fugir, mas as seqüelas psicológicas a tornaram um alvo fácil para predadores sexuais ao longo da adolescência. Ela ficou em silêncio durante anos.

Paralelamente um serial killer, o “Estripador de Yorkshire”, aterrorizava a Inglaterra. Como aconteceu com as vítimas de Jack, o estripador, a investigação policial rapidamente rotulou todas as vítimas de Peter Sutcliffe como “prostitutas”. Fã clubes aplaudiram a “limpeza” da sociedade. Isso só mudou quando uma moça de 16 anos, de família de classe média alta, também foi assassinada. A pressão da sociedade e da mídia obrigou os policiais a considerarem outras opções. Apesar disso, o assassino só foi preso porque usava um carro com a placa roubada.

Lembrei de “Falsa acusação: uma história verdadeira”, de T. Christian Miller e Ken Armstrong, também baseado numa história real, quando a polícia acusou a vítima de ter feito uma denúncia falsa de estupro. Quando surgiram outras, ficou claro que ela falava a verdade. Citando esse livro, o maior problema dos casos de violência sexual é que o caráter das vítimas é tão – ou mais – investigado e julgado do que as ações dos criminosos.

Assim, rotular as vítimas do(s) estripador(es) de “prostitutas” serviu como uma desculpa para julgar a vítima ao invés do estuprador. A falta de empatia da sociedade e da polícia por essas trabalhadoras, cuja maioria se encontrava em situação precária, resultou em anos de impunidade e em 13 mulheres mortas. E outras tantas traumatizadas.

Segundo o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, houve 66 mil vítimas de estupro no Brasil em 2018. A maioria (53,8%) meninas de até 13 anos de idade. O estuprador geralmente é alguém próximo da vítima, inclusive familiares. Longe de ser um caso isolado, o caso da menina de 10 anos sendo debatido atualmente é assustadoramente comum. Sara Winter, presa na investigação das fakes news e organizadora de um “protesto” inspirado na Ku Klux Klan e nos neonazistas, divulgou o hospital onde a criança faria um aborto. Evangélicos foram até o local atacar a menina e a equipe médica. Um grupo feminista se mobilizou para defendê-la. Em comum entre todos os casos reais que citei aqui está a cultura do estupro que condena uma menina de dez anos pelo crime de que foi vítima. Tal como condenou tantas outras mulheres.

“Desconstruindo Una” está disponível no Kindle Unlimited.

75. Lucifer v. 01: Cold Heaven – Holly Black, Lee Garbett, Stephanie Hans & Antonio Fabela. Aproveitei a estreia da nova temporada da ótima série “Lucifer” para conhecer o material original. O personagem debutou em Sandman, em 1989, criado por Neil Gaiman, nessa versão em que o diabo abandonou o inferno para abrir uma boate em Los Angeles. Lucifer depois ganharia um spin-off por Mike Carey, entre 2000 e 2006, a versão mais longa e mais famosa da história. Eu sou fã dos livros da Holly Black, por isso resolvi começar por essa minissérie em três edições de 2016. Errei feio.

Apesar de ser um “volume 01”, o material claramente é uma continuação da saga de Carey e precisa de um contexto prévio para ser compreendido. Esse é um problema que encontro frequentemente em comics, essa falta de uma porta de entrada para novos leitores mesmo em um suposto volume 01. Sendo justa, eu gostei da arte e o cliffhanger me deixou com vontade de continuar lendo. Eu já sabia que o original é muito diferente da série, mas ainda assim a presença de uma heroína como a Chloe fez muita falta. A personagem e as investigações policiais não existem no original. Isso não me incomodaria se fosse um material mais acessível.

76, 77 & 78 – Mars v. 11, 12 e 13 – Fuyumi Soryo. Se o arco anterior focou no passado de Kira, esse arco foca no passado de Rei. A verdade sobre a mãe permite que Rei reexamine a relação com o pai de criação e como se deixara influenciar pelo que ouvira sobre ele. Eu não gostei muito da revelação sobre a loucura da mãe, mas ainda assim a mangaká a escreve com sensibilidade e respeito. O pai é uma personagem mais interessante – triste e socialmente inapto, eu acredito que ele realmente quer o melhor para o filho ou ao menos manter qualquer laço com ele, mas falha estrondosamente em se comunicar e não sabe como reagir à personalidade rebelde de Rei, ao ponto que tudo virou uma bola de neve.

79 – Mars v. 14 – Fuyumi Soryo. Entrando na reta final da história, Kira convence o sogro a deixar que o filho siga o próprio caminho. Apesar da persistência da dificuldade em se comunicarem, pai e filho finalmente compreendem um ao outro. Rei retorna para as pistas de corrida tão imprudente quanto sempre e Kira se preocupa (com razão). Por fim, um velho conhecido antagonista retorna – e assim está preparado o cenário para o último volume. Eu gostei de como a história resolve o arco do Rei. As personagens não aprenderam como conversar magicamente, ao invés disso, pai e filho agora entendem como o outro funciona e como “ler” um ao outro. Uma escolha igualmente válida.

80. Mars v. 15 – Fuyumi Soryo. Mars é um mangá shoujo clássico, publicado originalmente em 1996, pela mangaká Fuyumi Soryo. A história segue o romance entre Kira, uma artista tímida, e Rei, um aspirante a piloto inconseqüente. Ambos começaram aprisionados pelos próprios traumas. O passado fazia com que Rei buscasse ativamente pela morte, enquanto Kira passivamente a esperava.

Ao longo de 15 volumes, as personagens se apaixonaram uma pela outra; cresceram física e psicologicamente; expandiram o ciclo social; enfrentaram as “sombras” e os traumas; se empoderaram; consertaram os laços pessoais estagnados e se afastaram daqueles que lhes fariam mal. Tudo escrito com muita sensibilidade e respeito.

A mensagem de despedida foi [spoiler] “continue vivendo” [/spoiler]. Viva o presente, pense no futuro, compreenda o passado e siga em frente. Poético, simples e marcante. Mars é uma das mais belas jornadas de cura que já tive o prazer de ler.

Na minha resenha do primeiro volume, descrevi o mangá como “melancólico, esperançoso, engraçado, romântico, dramático (com um drama humano bem construído)”. Até o fim se manteve como uma mescla perfeita de romance, comédia e drama. Um novelão atemporal e inesquecível – com personagens construídas com maestria e uma arte lindíssima. 5/5

81. “Relíquias” – Tess Gerritsen. Esse é o sétimo livro de “Rizzoli & Isles” e pode facilmente ser lido de maneira independente. Isso é ótimo, porque é o primeiro que leio da saga. A premissa é a seguinte: a patologista Maura Isles é convidada para examinar a múmia Madame X. Durante o exame, percebe que se trata de um cadáver de uma mulher assassinada em um período de tempo recente. Quando o caso ganha repercussão na mídia, o assassino deixa sinais de que ainda está vivo – e em atividade.

De um modo geral, esse livro é como um episódio de uma série policial. A estrutura narrativa é a mesma, com as reviravoltas já esperadas, inclusive com algumas forçadas ([spoiler] vide ah, não, fulanx estava vivx esse tempo todo!!!!!! x2 [/spoiler]). As personagens são exploradas minimamente, permitindo a compreensão de um novo leitor/expectador. Entendo o motivo, mas é um ponto fraco.

O quebra-cabeças é muito interessante e o livro é bem escrito, embora algumas questões terminem em aberto, como as identidades de parte das vítimas. A autora é médica e a sua formação contribuiu para a criação dos assassinatos “arqueológicos”. Ainda assim, tirando a parte exótica da trama, não resta muita profundidade para o enredo. 3/5

82. Cardcaptor Sakura: Clear Card Arc v. 01 – CLAMP. “Sakura Card Captors” foi o anime que marcou a minha infância. O primeiro mangá que eu comprei, o primeiro que eu li. Sakura era a minha heroína – eu brincava usando uma vassoura como um báculo, aspirava ser tão gentil e forte quanto ela “quando eu crescesse”, assistia e reassistia um bilhão de vezes, no Cartoon Network, na Globo…

Agora eu volto para essa história muita mais velha do que as personagens, mais cínica, mais crítica. O original sobreviveu ao tempo e se tornou um clássico, mas possuía problemas. Um deles foi “solucionado” pela continuação logo no começo, informando que Rika mudou de escola. Como ficou aberto para interpretação, imagino que o Terada esteja apodrecendo na cadeia.*

Eu presumo que o principal objetivo desse novo arco seja explicar o minicrossover entre Cardcaptor Sakura e Tsubasa Reservoir Chronicle (outra obra do grupo CLAMP). Em Tsubasa, a Sakura faz uma participação especial oferecendo o báculo em sacrifício para ajudar os protagonistas. Acredite em mim quando digo que isso é tudo que precisa saber sem correr o risco da cabeça explodir.

Enfim, tem essa brecha para explicar como a Sakura poderia perder o báculo, mas manter o controle sobre as cartas. Esse primeiro volume começa na cena final do original, com o reencontro de Sakura e Shoran. Alguma coisa estranha está acontecendo com as cartas e Sakura recebeu uma nova chave. Clear Card Arc tem bastante potencial, se as autoras seguirem o mesmo padrão de qualidade do original.

A verdade é que Sakura ainda hoje aquece o meu coração – ao ponto de calar a cínica que considera essas continuações como caça-níqueis. Continua divertido e fofo na medida certa. 5/5

* Falta prender a Mizuki.

83. “Criaturas estranhas” – histórias selecionadas por Neil Gaiman. Apesar de serem assinados por diferentes e diversificados autores, os contos dessa antologia têm a mesma tonalidade de um realismo “absurdo”. Todos abordam a magia por meio de uma criatura fantástica, inserida com naturalidade no enredo. A maioria desperta a curiosidade e é memorável. Com exceção de uma ou outra história, que se estende demais (caso de “Prismática” e “O lobisomem cabal”). Nessa antologia, Neil Gaiman prova que, além de excelente escritor, tem muito bom gosto como leitor. 4/5

84. “A Mão e a Luva” – Machado de Assis. Guiomar têm três pretendentes: o romântico Estevão, o fraco Jorge e o ambicioso Luís. A moça acaba sendo forçada a escolher, para não contrariar a sua mãe de criação, embora tema que um casamento possa atrapalhar os seus sonhos.

Só a “Advertência” do Machado de Assis no início dessa novela já compensa a leitura. Se até um deus é tão crítico com o próprio texto, confessando supostos erros pelos problemas do formato, quem somos nós relés mortais para produzirmos um texto excelente em condições adversas?

Machado foi injusto consigo mesmo: os pretendentes da moça recebem o desenvolvimento que se esperaria de um livro tão curto (pouco mais de 120 páginas), mas quem realmente brilha é Guiomar. Inteligente, pragmática e ambiciosa, que usa uma máscara de afabilidade para esconder a sua natureza esperta.

Ela é uma personagem feminina multifacetada – e que essas características sejam tratadas como positivas já a coloca muito a frente da maioria das mulheres escritas no século XIX. Na Inglaterra, por exemplo, a era vitoriana, contemporânea do autor, induzia um ideal de virtude para todas as mulheres.

Além disso, é muito interessante perceber como mesmo pertencendo ao romantismo, esse livro contém elementos que apareceriam nas produções futuras. A conversa com a leitora, a ironia aqui e ali (“era ilusão”, responde Guiomar para um pretendente que afirmou que ela dera “sinais” de interesse recíproco), Estevão é praticamente uma paródia de um herói romântico, e, por fim, o “romantismo” do livro é bastante realista.

Eu gosto das edições da Lafonte para os clássicos brasileiros, é um formato mais acessível, mas com um papel muito bom e uma formatação melhor ainda. 4/5

86. Wotakoi – O amor é difícil para otakus v. 02 – Fujita. Ver review 34. Esse volume em duas imagens:

Wotakoi 1

Quem nunca?

Wotakoi 2

Wotakoi v.02 – Fujita

87. “The romance of certain old clothes” – Henry James. Conto gótico em que duas irmãs disputam o amor de um homem, deteriorando o laço fraternal.

88. “Os Pilares da Terra” – Ken Follett. Essa edição lindíssima em capa dura reúne em um único volume a obra-prima de Ken Follett. “Os Pilares da Terra” narra os percursos da construção de uma catedral durante uma crise dinástica na Inglaterra medieval. Apesar de possuir quase mil páginas, o ritmo da narrativa é envolvente do começo ao fim. Filósofo com pós-graduação em jornalismo, Ken Follett fez um bom trabalho de pesquisa sobre a igreja, os aspectos técnicos da construção, o cenário político e cultural da Inglaterra entre 1135 e 1174.

O principal mérito da obra é a forma como o autor consegue entrelaçar perfeitamente as vidas das personagens de diferentes origens: um prior, um bispo inescrupuloso, a família de um mestre construtor, uma “feiticeira” com o filho, a filha de um conde destituído e o cruel sujeito que ganhou o condado. Todos são memoráveis a sua maneira, mas os meus favoritos são a resistente e astuta Aliena e o “prior ardiloso que sempre consegue o que quer” e “tirano benevolente” Philip.

Outro mérito é como a obra mostra como os eventos a nível nacional (da crise sucessória) repercutiram no local. Essa é tanto uma história sobre a construção de uma catedral quanto sobre os percursos e tragédias enfrentados pela cidade de Kingsbridge ao longo de mais de 30 anos. Os arcos das personagens serem consistentemente construídos mesmo com a dimensão abrangente do livro é incrível. Eu pausei a leitura em alguns momentos pesados (alerta de spoilers: cenário de guerra, muita violência, estupros, impossível não odiar o William). Entretanto, as melhores histórias são aquelas que conseguem finalizar com a reconstrução após a tempestade. 5/5

89. “Remissão da pena” – Patrick Modiano. Essa novela, com ares autobiográficos, trata-se de rememorações sobre a infância e o breve período em que o protagonista viveu na casa de amigas da mãe. Prosa envolvente e atmosférica, mas terminei tão confusa sobre os eventos quanto o protagonista. 3/5

90. Seven Days: Monday > Sunday v. 2-1 completo – Venio Tachibana & Rihito Takarai. Seven Days é um dos mangázinhos do meu coração. Tem de tudo: comédia romântica; personagens cativantes; premissa interessante, maluca e envolvente; bissexuais caóticos; arquearia; adaptação para dois filmes live action… Essa edição da Viz Media reúne o mangá completo num único volume. Não é tão luxuosa quanto os “2 volumes em 1” brasileiros, mas em contrapartida a gramatura do papel é melhor (nada de papel transparente aqui) e o preço é mais acessível pro público norte-americano (se não converter pro real, claro). Eu escrevi sobre Seven Days pro Gyabbo! há alguns milênios. 5/5

91. Dragon Ball (Edição Definitiva) v. 02 – Akira Toriyama. A primeira metade desse volume encerrou a saga da busca pelas esferas do dragão, enquanto a segunda tem o início do treinamento do Goku com o Mestre Kame. Essa é uma edição em capa dura e papel couchê fosco, reunindo os 42 volumes originais em 34. O papel tem um problema perceptível nas fotos: excesso de reflexo. Imagino que ele foi escolhido por destacar as páginas coloridas (o volume tem dois capítulos coloridos).

De acordo com o primeiro editor do mangá, Dragon Ball se passaria na China. Contudo, as cidadezinhas desse volume estão mais para “Arabialândia”. Considerando os cenários variados e a geopolítica da história (um único presidente mundial), parece mais um mundo sem países e sem fronteiras, com uma levíssima inspiração na China.

92. “Laços de família” – Clarice Lispector. 2020 marca o centenário de uma das nossas maiores escritoras (Clarice nasceu em 10 de dezembro de 1920). Eu comemorei com uma releitura.

“Laços de família” foi o primeiro livro de Clarice que li, quando ainda estava no fundamental e, como boa rata de biblioteca, pegava livros emprestados na biblioteca da Escola Municipal Jalles Machado de Siqueira. Na época, não possuía a capacidade para apreciar a descrição poética e vívida, a subjetividade e o fluxo de consciência psicológico na escrita da Clarice Lispector.

Por sorte, anos depois, eu daria uma nova chance com “Felicidade Clandestina” e me apaixonaria pelo seu estilo. Hoje, relendo e apreciando a antologia “Laços de família”, acredito que a força de Clarice sempre esteve nos contos.

93. “Mo Dao Zu Shi” – Mò Xiāng Tóngxiù. Eu devorei o livro que serviu de base para “The Untamed” (“Os Indomáveis”, disponível na Netflix) com a mesma velocidade com a qual maratonei a série. Na história, Wei Wuxian se torna o inimigo público número um do mundo dos cultivadores. Duas linhas do tempo se entrelaçam por meio de flashbacks: a primeira, que culmina na sua morte (não é spoiler); a segunda, em que ele é revivido 13 anos depois para que exerça uma vingança. Nessa nova vida, Wei Wuxian reencontra Lan Wangji, o seu “arqui-inimigo” (segundo a opinião pública) e grande amor da sua vida. ~ MDZS é a mistura perfeita de fantasia sombria, romance, personagens maravilhosamente complexas e temas que te fazem refletir durante dias. 5/5

Screenshot the untamed

The Untamed/MDZS, um resumo.

Embora, se olhar pelo ponto de vista do Lan Zhan, é a história de como um gay reprimido se apaixonou por um bissexual caótico que flertava com todo mundo, injustamente foi perseguido e morreu, tornando o gay reprimido em gay trágico. Felizmente, 13/16 anos depois, o bissexual caótico reviveu e ninguém tiraria o final feliz do gay agora confiante!

Citações incríveis:

“Don’t you understand? When you’re standing on their side, you’re the bizarre genius, the miraculous hero, the force of the rebellion, the flower that blooms alone. But the second your voice differs from theirs, you’ve lost your mind, you’ve ignored morality, you’ve walked the crooked path.”

“… Who cares about the crowded, broad road? I’ll walk the single-plank bridge into the night…”

“But what he hadn’t expected was that when everyone feared him and flattered him, Lan WangJi scolded him right in his face; when everyone spurned him and loathed him, Lan WangJi stood by his side.”

“Hatred could blind a person’s eyes, making him unable to admit anything in favor of his enemy.”

“You’re really great. I like you… Or in other words, I fancy you, I love you, I want you, I can’t leave you, I whatever you.”

Créditos da tradução para a K.

94. Fragmentos do Horror v. único – Junji Ito. Eu celebrei o Dia das Bruxas com a leitura de uma antologia josei do Junji Ito, famoso mangaká especializado em terror. Esse é o meu primeiro contato com a obra do autor. O traço é muito bonito e único, mas as histórias são apenas ok. A edição da Darkside em capa dura é uma belezura só. A capa, inspirada no quadro O Grito, de Edvard Munch, tem uma textura com monstros ocultos. 3/5

95. “O misterioso caso de Styles: o primeiro mistério de Hercule Poirot” – Agatha Christie. O primeiro caso do detetive belga Hercule Poirot também foi o primeiro livro da Rainha do Crime. Ele foi publicado há exatamente 100 anos, em outubro de 1920. Embora não seja tão instigante quanto outras obras da autora, todos os elementos que consagraram a saga do detetive já estavam presentes nesse livro: as tramas mirabolantes; as famílias imensas e problemáticas; as reviravoltas coerentes e uma “reunião” com todo o elenco no final para a revelação do criminoso. 2,5/5

Citações:

“Ele costumava dizer que todo trabalho de detetive bem realizado é mera questão de método.”

“A imaginação é boa criada, porém má conselheira. A explicação mais simples é sempre a mais provável.”

“Tudo precisa ser levado em consideração. Se o fato não se encaixar na teoria, deixe a teoria de lado.”

96. Given v.02 – Natsuki Kizu. Esse volume explora amor, perda e seguir em frente por meio da história do Mafuyu, o seu amado falecido Yuki e o seu novo amor Uenoyama. A analogia da guitarra com a corda arrebentada funcionando como um coração partido, ambos suscetíveis de um conserto, funcionou muito bem.

97. “Redemoinho em dia quente” – Jarid Arraes. Essa é uma antologia de contos focados em mulheres, negras e pobres, sobrevivendo em “dias quentes”. O estilo da autora possui uma musicalidade bonita e melancólica, possivelmente uma herança da sua origem na literatura de cordel. Além disso, Jarid Arraes consegue contar uma história tocante em apenas uma página. 5/5

98. Our dining table v. único – Mita Ori. Uma história de amor fofinha entre dois rapazes solitários, com uma dose extra de kid fic + família + domesticidade.

99. “Daqui pra baixo” – Jason Reynolds. Quando o irmão é assassinado, Will se encontra diante das “regras” do bairro: não chore, não dedure, vingue-se. Assim, esse livro explora o ciclo da violência em um bairro pobre, a criminalidade como uma opção tentadora e ao mesmo tempo destrutiva, além da tragédia inerente desse ciclo que destrói inúmeras famílias e comunidades. Numa sociedade em que prevalece a noção desumanizadora de “bandido bom é bandido morto”, esse livro é fundamental. Geralmente penso que uma história em versos deveria vir com um aviso em caixa-alta na capa, mas aqui fortalece o impacto das emoções e dos dilemas psicológicos do protagonista. 4/5 Um exemplo:

“É TÃO DIFÍCIL DIZER

Que o Shawn

morreu. O Shawn

morreu.

Estranho demais.

Triste demais.

Mas acho que

não tão inesperado,

o que acaba sendo

ainda mais triste.”

100. “O perigo de uma história única” – Chimamanda Ngozi Adichie. Segundo a minha listinha, esta é a minha centésima leitura de 2020! Então considero pertinente que seja justamente sobre esse excelente ensaio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Nesse ensaio, a escritora define os perigos de uma única versão da história (as imagens criadas pela mídia, pela ficção e pelo senso comum) tornando-se a sua versão definitiva.

Como, quando e por quem as histórias são contadas, além da quantidade de pontos de vistas dependem do poder – cultural, financeiro, simbólico etc. – que as originam. “A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história”.

Assim, para conhecermos um determinado lugar, precisamos aprender as histórias locais. A história única torna: “difícil o reconhecimento da nossa humanidade em comum. Enfatiza como somos diferentes, e não como somos parecidos”. Portanto, devemos rejeitar as histórias únicas e compreender a importância da pluralidade – buscar um equilíbrio de narrativas.

Por exemplo, os países africanos não são vistos em suas individualidades. Em comparação, nós temos múltiplas representações dos Estados Unidos por meio da sua produção cultural e pela cobertura midiática mundial. Os EUA jamais se resumiram ao Trump. Mas qual a impressão do Brasil lá fora? Nós somos a imagem projetada pelo atual governo? Imbecis, incompetentes e preconceituosos?

Em 2020, falamos muito sobre a China por aqui. O que sabemos sobre a China atual que não seja baseado em estereótipos, piadas maldosas e notícias sobre os BRICS? A história única sobre a China – incentivada pelo governo federal – pode custar à vacinação de uma parcela significativa da população brasileira. Pode literalmente custar vidas. Não consigo pensar em um exemplo maior do perigo da história única. 5/5

101. Cardcaptor Sakura: Clear Card Arc v.2 – CLAMP. Sakura sonha com uma figura misteriosa justamente quando surge uma nova colega na escola, enquanto Shaoran e Eriol sabem de alguma coisa. O mistério do novo báculo é interessante, mas sinto que as novas cartas não têm o mesmo charme das antigas. Sakura, já experiente, consegue facilmente descobrir que há algo errado e capturar as cartas. Por um lado, é coerente que o mangá reconheça que a protagonista já é overpower, mas por outro, os “casinhos da semana” são menos instigantes do que fillers.

102. “Crimson Rain Sought Flower” – Mò Xiāng Tóngxiù. A autora definitivamente sabe fazer um romance slow burn com personagens fascinantes. Resenha completa no último livro.

103. Rosa de Versalhes v. 4 – Riyoko Ikeda. Resenha com spoilers. A arte da mangaká evoluiu bastante desde o primeiro volume, alcançando o seu auge na reta final. O mesmo pode ser dito sobre a história, que chegou ao clímax trazendo os eventos da Revolução Francesa. Oscar conquistou o status de heroína e tomou definitivamente o protagonismo nessa edição. O seu arco consistia em um conflito interno entre os seus deveres (e a sua honra) como parte da guarda real e os seus ideais que se aproximavam dos revolucionários. A personagem finalmente fez a sua escolha, com direito a um belo discurso que demonstra porque é icônica na França:

“[…] Assim como os Estados Unidos venceram e conseguiram a independência da Inglaterra… Agora, o povo francês se ergueu bravamente hasteando a bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade. Neste exato momento, estou abandonando meu título de condessa e tudo o que posso obter com ele. Vamos! Escolham! Querem ser ferramentas do Rei e da nobreza e apontar as armas para os cidadãos… ou preferem participar deste grande e glorioso feito ao lado do povo como cidadãos livres? […] Preparem-se!! Corajosos soldados!! Vamos lutar ao lado do povo pelo bem de nossa nação!! Quem constrói a História não é um único herói ou um general, mas, sim, o povo. Vamos nos tornar os heróis desconhecidos de nossa nação!!”

104. “O último desejo – A saga do bruxo Geralt de Rívia – Livro 1” – Andrzej Sapkowski. O primeiro livro da saga que serviu de base para a série The Witcher é uma antologia de contos sobre as aventuras do bruxo Geralt de Rívia. A releitura sombria dos contos de fadas é o ponto alto do livro. Individualmente, a maioria dos contos funciona. Contudo, “A Voz da Razão” – o conto fragmentado por todo livro – é o mais fraco. Ao invés de criar um arco dramático coerente para o seu protagonista, esse conto apenas expõe como não há realmente nenhuma trama que una todos os episódios da vida do bruxo. Além disso, como ocorreu na adaptação, a linha do tempo é confusa. Falando na série, a diferença na personalidade do Geralt (aqui falante, simpático e sarcástico) é interessante. 3/5

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Esses são dois dos melhores mangás que li em 2020 – e por terem muito em comum, optei por resenhá-los em conjunto. Ambos são lançamentos atuais no Japão, centrados em um romance entre universitários, com protagonistas portadores de deficiência auditiva, multifacetados e retratados com sensibilidade.

105 & 106. A sign of affection v. 01 e 02 (+ capítulos avulsos) – Suu Morishita. Yuki, uma universitária portadora de deficiência auditiva total, é abordada por um estrangeiro no trem. Por sorte, Itsuomi, um colega de universidade que é poliglota, responde a pergunta no seu lugar. Esse é o ponto de partida para um romance fofinho entre duas personagens interessantes. Yuki estudou em escola para alunos especiais durante toda a sua vida, assim, a entrada na universidade expandiu o seu ciclo social completamente. Enquanto isso, Itsuomi fala 6 línguas (fluente em japonês, inglês e alemão, fala um pouco de chinês e está aprendendo espanhol), costuma viajar no estilo “mochilão” pra onde quiser e é fascinado por outras culturas. Com uma arte lindíssima e uma história singela, esse mangá shoujo é diferente de tudo que eu já li. Além disso, o ponto de vista da protagonista é retratado de forma criativa (diálogos em cinza claro para representar leitura labial, as conversas em língua de sinais com a palavra mais importante destacada etc.). 5/5

107. I hear the sunspot v. 01 – Yuki Fumino. Kohei, um universitário anti-social e portador de deficiência auditiva parcial, costuma se isolar dos seus colegas do curso de direito. Até o dia em que conhece Taichi, estudante do mesmo curso, pobre, idiota adorável e eternamente a procura de um emprego. Esse BL desenvolve primeiro a amizade entre os protagonistas, com a sugestão de um romance no horizonte (e nos volumes posteriores). Kohei é orgulhoso e inicialmente rejeita recursos que facilitariam a sua vida (como o curso de libras). O aspecto “educativo” ser uma parte essencial do desenvolvimento do protagonista é uma ótima sacada da mangaká. 5/5

108. Cardcaptor Sakura: Clear Card Arc v.3 – CLAMP. Continua adorável (até demais?). As minhas esperanças de desencalhar a Tomoyo com a Akiho afundaram com a revelação de que esta última é crushada num cara mais velho (sério, CLAMP?). De resto, o objetivo do volume é desenvolver a amizade com a suspeitíssima novata, sem muito progresso no enredo.

109. “Os Bridgertons 1: O Duque e eu” – Julia Quinn. Na Inglaterra do séc. XIX, o duque de Hastings não deseja se casar, enquanto Daphne está insatisfeita com os pretendentes, o que os leva a fingir um relacionamento. Você já sabe como isso termina. Embora possua alguns momentinhos cringe, é um bom entretenimento. 3/5

110. Cardcaptor Sakura: Clear Card Arc v.4 – CLAMP. O volume finalmente traz algumas respostas sobre o mistério, como [spoilers] a confirmação que Akiho é a figura misteriosa (embora não saiba de nada) e informações sobre seus companheiros Kaito (um mago) e Momo (obviamente, é uma criatura viva). Presumo que são paralelos para Sakura, Yue e Kero respectivamente. Isso dito, de forma preocupante, CLAMP mantém um estilo vago e sugestivo na construção do mistério, remetendo justamente ao que arruinou xxxHolic e TRC. Com sorte, o mesmo não se repetirá aqui. Essa imagem adorável da Sakura xingando é uma boa forma de encerrar a última review de 2020:

ccs

Se leu até aqui, muito obrigada!

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