Resenhas 2022

Esta postagem reúne todas as resenhas de livros, mangás e outros quadrinhos lidos em 2022.

Janeiro

1. Card Captor Sakura: Clear Card Arc v.8 – CLAMP. Neste volume, o vilão força Sakura a vivenciar o passado de Akiho (entre outras experiências) para que ela possa criar a carta desejada. As motivações de Kaito também entram em jogo. Ele deseja usar Akiho para alguma coisa ou na verdade quer salvar a moça do seu destino de ser “um grande arquivo de todos os feitiços proibidos”? Além disso, as mães das duas garotas (“alices”) eram amigas. Há muitas referências a Alice no País das Maravilhas neste volume. Quem será a Rainha de Copas?

2. “Pessoas normais” – Sally Rooney. O romance de Connell e Marianne é um percurso desigual. Na adolescência, a mãe dele trabalhava na casa da família dela. Connell era um dos garotos mais populares da escola, enquanto Marianne era a excluída. Na faculdade, Marianne é teoricamente popular, já Connell não se relaciona muito bem com aquele meio de pessoas ricas e privilegiadas. Entretanto, essa “desigualdade equilibrada” existe mais na teoria do que na prática da relação. Marianne é vítima de abuso, da violência doméstica do pai e do irmão, além da negligencia da mãe. Além de sua tendência a ser submissa na cama, isso faz com que ela permita que os homens a usem como bem entenderem. Mesmo quando teoricamente “dita” a relação com Connell, me pareceu muito mais uma questão de falha de comunicação da parte dele, principalmente porque ela era compreensivelmente traumatizada pela forma como ele aparentemente só a usara pra sexo na adolescência. “Pessoas normais” é muito interessante como exploração de questões de gênero e de classe, mas o romance não me cativou minimamente. Com a abertura no final, torci para que ambos finalmente pudessem encerrar essa etapa para encontrar relações mais saudáveis no futuro. 4/5

3. Spy x Family v.01 – Tatsuya Endo. O espião Twilight precisa formar uma família para a sua próxima missão. Para isso, ele adota a telepata Anya e se casa com a assassina de aluguel Yor. Detalhe: Anya é a única que sabe sobre as “identidades secretas” da família. Spy x Family tem tudo para ser um mangá muito divertido e que foge da fórmula da Shounen Jump. Além disso, tem um subtexto político sutil, considerando o aspecto de guerra fria no mundo fantasioso dessa história e a manchete de um jornal fazendo referência crítica ao Trump. Não é por nada que o protagonista se posicione claramente contra a guerra e defenda que o mundo seria melhor se houvesse mais diplomacia entre as lideranças.

4. Ao no flag v.05 – Kaito. Taichi conta para Touma que começou a namorar Futaba. Paralelamente, Mami se aproxima de Taichi, desejando ser sua amiga, o que desperta os ciúmes de Futaba e as suspeitas com relação às suas motivações. Entretanto, a moça tem um histórico de sofrer bullying por ser amiga de homens e no final das contas só queria mesmo uma nova amizade. Como sempre, Ao no Flag entrega um bom drama, por mais que Mami não seja uma personagem que me interesse muito.

5. Given v.06 – Natsuki Kizu. Uenoyama entra temporariamente para a banda de Hiiragi. Além disso, Hiiragi e o melhor amigo são apaixonados um pelo outro, embora nenhum saiba que é recíproco. Enquanto isso, a banda Given recebe uma oferta de uma gravadora. Hiiragi desafia Mafuyu: a seriedade de seu comprometimento com a banda e com Uenoyama estaria na decisão do rapaz sobre aceitar ou não a oferta. Simultaneamente, Hiiragi também convida Uenoyama a “completar” uma música deixada por Yuki. Esse volume preparou o terreno para o novo arco de Given, com um foco maior nos amigos de infância de Mafuyu.

6. Kamen Rider v.01 – Shotaro ISHInoMORI. Takeshi Hongo foi capturado e geneticamente modificado pela vil organização Shocker, que pretende dominar o mundo. O jovem se transforma no herói Kamen Rider para combatê-la. Surpreendentemente divertido e nostálgico (para quem só assistiu o Black/RX).

7. Real v.02 – Takehiko Inoue. Enquanto Takahashi descobre que ficou paraplégico, a equipe de basquete da escola perde a partida decisiva, para a tristeza de Nomiya. Entretanto, a força desse volume está na história “a parte” de Togawa ou Kiyo-chan. Ele se esforça para voltar para o Tigers, mesmo contra a vontade de alguns colegas. Além disso, somos apresentados a uma versão completa da sua backstory (a morte da mãe, o luto do pai, a sua trajetória interrompida como corredor e o romancinho com a melhor amiga de infância). Eu definitivamente tenho um favorito entre os protagonistas de Real. 5/5

8. “Baseado em fatos reais” – Delphine de Vigan. A escritora Delphine recebe cartas anônimas odiosas depois do lançamento de um livro autobiográfico. Fragilizada, ela se deixa envolver por L., uma mulher misteriosa que se apresenta com uma ótima amiga, mas aos poucos vai lhe dominando em todos os aspectos da sua vida. “Baseado em fatos reais”, como sugere o título, é um livro sobre escrita. Há dois temas principais. O primeiro é sobre a “realidade” da escrita. Embora eu concorde com a conclusão final (há realidade na ficção e ficção na narrativa “verdadeira”), de um modo geral não me tocou verdadeiramente. Imagino que na França há (ou havia) uma sobreposição das biografias e autobiografias (é, afinal, o país da formalização da “História” enquanto disciplina), especialmente para uma escritora que acabara de lançar uma autobiografia de sucesso (como era o caso da escritora na vida real também). Porém, achei essas discussões chatinhas e típicas de um livro sobre escrita. A parte mais interessante é o outro tema do livro, presente de cara com a referência a Misery, de Stephen King: a relação entre escritores e os receptores de seu trabalho (fãs, críticos, haters, etc.). L. é simultaneamente a representação da pressão exercida pelos fatores fora da escrita, que levam ao bloqueio criativo, como também das influências literárias e, por fim, uma manifestação da sombra da própria Delphine. No final das contas, o livro se torna muito mais forte na metade para o final. Se tivesse menos páginas ou enrolasse menos no começo, eu teria gostado mais da leitura. 3/5

9. “As Cobras” – Luis Fernando Verissimo. Presentes frequentemente nos vestibulares e nas provas do ENEM, as tirinhas da saga “As Cobras” geralmente apresentam um humor inteligente e refinado. Entretanto, essa antologia optou pelas opções mais fracas e repetitivas, trazendo um repertório que não reflete minimamente o que há de melhor nessa produção do Verissimo. Uma pena. 2/5

10. “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo” – Benjamin Alire Sáenz. Releitura de uma obra querida.

11. Princess Jellyfish v.02 (2-1) – Akiko Higashimura. Kuranosuke “encontra” a solução para salvar o prédio: criar uma linha de roupas baseadas em águas-vivas. As outras Amars quase descobrem o seu segredo. Porém, escapa com uma desculpa que rende uma ótima referência a Rosa de Versalhes e acaba entrando oficialmente para o time das Amars. 5/5

Fevereiro

12. Bloom into you v.05 – Nio Nakatani. Yuu convence a roteirista a mudar o final da peça escolar após perceber que Nanami projetava na protagonista. O novo final confronta a visão da moça de que deveria substituir a irmã, com a personagem da peça optando por ser quem é ao invés de assumir uma máscara desejada por outra pessoa. Nanami “surta” quando absorve a mensagem – quem seria ela sem copiar a irmã? 5/5

13. “A paixão segundo G.H.” – Clarice Lispector. Uma mulher rica e privilegiada entra no quarto da empregada, onde encontra uma barata. Esse é o único acontecimento do livro. Por mais que excesso de fluxo de consciência me deixe entediada, acredito que Lispector o escreve perfeitamente bem em contos. Neste curto romance, contudo, parece mais uma reflexão confusa e sem sentido do que realmente uma sequência de pensamentos genuínos. Eu queria mentir que apreciei alguma coisa nesse livro, porque gosto da autora e é um clássico da literatura brasileira, mas não consigo encontrar nem mesmo um comentário interessante sobre classe social no meio do nonsense. 1/5

14. Ao no flag v.06 – Kaito. O festival da escola é um momento aguardado por Taichi e Futaba, porém é com Touma que ele realmente passa o evento, rendendo uma série de momentos doces (estou oficialmente na torcida por esse casal!) e uma conversa importantíssima em que Touma finalmente questiona a imagem idealizada que Taichi tem de si (será que ele é sempre destinado a felicidade, seguro de si, não importa o quê? Como se fosse alguém sem camadas, sem problemas?). Isso prepara o garoto para a declaração importantíssima que ocorre no final do volume. Antes disso, Mami se declarara para Touma, que revelara para a garota que é apaixonado por Taichi. Kensuke ouviu a conversa e partiu para cima de Touma, quem revidara, e a briga – e o seu motivo – virou objeto de discussão na escola. (Nota: sempre achei Kensuke um personagem babaca, não me surpreenda que seja homofóbico). Assim, Taichi se encontra em uma encruzilhada no final do volume. Se reconhecer os sentimentos de Touma, não estaria abrindo uma porta que o afastaria de uma vida fácil? Vale apontar que só do rapaz se perguntar isso já deixa claro quem é a sua escolha no triângulo amoroso. =) Simultaneamente, acompanhamos uma conversa muito bonita entre Masumi e a cunhada de Touma, que pode finalmente ter ajudado a moça a se aceitar (bônus: sem cair em nenhum discurso liberal vazio, pois reconhece que pode não ser fácil se assumir, mas tiraria um peso muito grande do peito).  Um volume magistral de Ao no Flag. 5/5

15. “Aristóteles e Dante mergulham nas águas do mundo” – Benjamin Alire Sáenz. Eu queria amar esse livro como amei o original. Essa não é uma continuação gratuita. O primeiro livro tinha assuntos não resolvidos que renderiam bases fortes para a sequência. Entretanto, o autor tenta explorar mil temas diferentes ao mesmo tempo – e como resultado, parece que saímos de um discurso forçado para cair em outro, como se estivesse dentro da dashboard de uma SJW do Tumblr ou do Twitter – saindo de um post replicado com um gif de palmas para cair em outro. Todos com uma discussão pretensiosa, que se vende como socialmente consciente, mas no fundo é uma abordagem vazia do assunto. Um dos temas mais explorados, por exemplo, é a pandemia da AIDS no final da década de 1980. O autor comenta nas palavras finais que queria lembrar que os mortos eram pessoas, não números. Porém, a abordagem do livro acaba reproduzindo muito mais uma visão de “números” do que realmente de “pessoas”. Os mortos mais “relevantes” no livro: o filho de uma atendente aleatória que passa uma lição de vida pro protagonista e o irmão de uma moça introduzida no *velório*, mas que é retratada como se já tivesse uma ligação de longa data com o Ari. Falta personalização. Todos os assuntos são abordados da mesma maneira, de forma quase episódica. O autor procurou navegar todas as águas do mundo, mas no afinal não abordou nenhum rio com profundidade. Especialmente no caso da mulher trans morta pelo irmão de Ari. Ari nomeá-la por conta própria parece descaradamente com uma tentativa de se redimir aos olhos do Twitter do que um momento “empoderado” pra morta. Pelo contrário, a sensação é que ela recebera mais uma violência, dessa vez no campo simbólico. Pelo menos no primeiro livro era coerente com a época (nota: o cancelamento do autor foi 100% gratuito) e a revelação de que o irmão do Ari matara uma travesti tinha relevância pro arco de descoberta do personagem. Outro aspecto negligenciado foi a preocupação de Ari e Dante com o futuro de ambos enquanto casal (outra coisa que fica jogada pra escanteio no livro, ganhando algumas páginas clichês no final). A reta final melhora um pouco, ao retomar os laços entre as personagens do primeiro livro após uma morte importante (mas sem ligação com o tema da AIDS), embora ainda sofra do excesso de discursos mal-encaixados e de personagens perfeitinhas demais pro meu gosto. 2,5/5

16. Força, Nakamura!! v. único – Syundei. Nakamura é um garoto gay e tímido, que tem um crush pelo colega Hirose e deseja se tornar seu amigo. Mais uma vez preciso parabenizar a editora NewPop pela curadoria. Esse mangá BL é fofo, engraçado e consegue ser uma história de amizade adolescente sem apagar a representatividade (Nakamura sabe que é gay, embora em um determinado momento cogite a possibilidade de ser bissexual). O protagonista é facilmente identificável para quem já foi o adolescente socialmente inepto e tímido, com dificuldade em fazer amizade com os coleguinhas. Daí porque o final é tão deliciosamente satisfatório. 5/5

17. “Evidências de uma traição” – Taylor Jenkins Reid. Em 1976, Carrie descobre que o marido está tendo um caso ao encontrar uma carta da amante. Em busca das cartas que seu marido enviara para a outra, ela entra em contato com David, o marido da amante, iniciando uma troca de cartas entre os dois. O livro faz um bom uso da estrutura epistolar e a escrita é envolvente. Entretanto, sofre de três problemas: 1) segue os rumos previsíveis; 2) quando os dois “traídos” se tornam amigos, as trocas de elogios ficam excessivas (como se sempre precisassem reforçar quão maravilhoso é o outro); 3) a reviravolta final (spoiler: Carrie engravida de David, que voltara com a esposa. Uma mulher que era continuamente rebaixada por sua suposta incapacidade de engravidar tem como final feliz… descobrir que pode engravidar, o que lhe dá forças para se divorciar do marido escroto. Viva o empoderamento feminino? Ah, espera). De resto, foi uma leitura proveitosa e rápida. Perfeita para terminar em um dia. 3/5 

18. Ping Pong v.01 (edição 2,5 em 1) – Taiyo Matsumoto. Com um dos melhores trabalhos gráficos da história da JBC, Ping Pong conta a história dos melhores amigos de infância Tsukimoto (Smile) e Hoshino (Peco). Quando o novo técnico da equipe de pingue-pongue da escola projeta a própria história “trágica” como jogador em Smile, ao reconhecer o potencial do mesmo como jogador e forçá-lo a seguir um caminho profissionalizante, inadvertidamente acaba afastando os melhores amigos. Entretanto, o que Smile – que repetidamente afirma não querer viver pelo jogo – realmente deseja para a própria vida? Uma carreira internacional como jogador? Ou na verdade isso apenas o afastaria do verdadeiro motivo porque joga pingue-pongue: uma forma de se manter próximo de Peco, seu “herói”, pois era o amigo que o fazia sorrir, rir e, mais do que apenas salvá-lo do bullying dos coleguinhas, o salvava solidão. 5/5

19. “Sonhador impossível” (O Sonhador, livro 2) – Maggie Stiefvater. Incentivados pelo líder de culto Bryde (obrigada, Adam), que primeiro os guia para salvar outros sonhadores e depois para salvar as linhas ley, Ronan e Hennessy fazem escolhas questionáveis. O livro é majoritariamente centrado nesses dois trens desgovernados que caminham rumo a inevitável colisão, com consequências graves para as outras pessoas. Talvez esse seja o principal tema do livro: o ódio contra si mesmo resulta em consequências graves para as outras pessoas. Ou talvez seja o mesmo de Evangelion: grandes poderes nas mãos de jovens adultos depressivos e instáveis é uma receita desastrosa. Já o tema secundário é sobre a criação artística, no ponto de vista mais prazeroso do livro, que mostra a jornada de independência de Jordan, Declan e Matthew. Na outra parte do livro tem Carmen e Liliana. As duas personagens mais subdesenvolvidas do livro. Além disso, me incomoda Carmen narrar os momentos climáticos e o primeiro capítulo. O estilo dissociado e mecânico da narrativa tira a emoção dessas cenas vitais. Por fim, como demonstra esse resuminho, esse é um livro deveras fragmentado e, infelizmente, tão sem sal quanto o vilão Bryde. Falta Adam e falta Pynch, embora eu compreenda que fosse necessário para a jornada (spoiler) vilanesca (/spoiler) de Ronan. A emoção finalmente aparece nos capítulos finais, recheados de uma ótima reviravolta. 3,5/5

20. Ao no flag v.07 – Kaito. As consequências da exposição da sexualidade de Touma, da briga com os (péssimos amigos) e da declaração de Touma para Taichi são o foco desse volume. Entre todos os diálogos e discussões que permeiam essa edição, a que mais gostei foi entre Mami e Masumi quando a primeira descobre sobre os sentimentos de Masumi por Futaba. Uma discussão emocional em que ambos os pontos de vistas eram coerentes com suas personalidades e situações, sem que houvesse certa ou errada.

Porém, a discussão mais “politizada” entre as amigas recém-introduzidas de Mami e os (péssimos) amigos de Touma me incomodou bastante. Kensuke defendendo abertamente posições homofóbicas e machistas, enquanto as meninas rebatiam de forma dura – mas nem por isso menos correta. Shingo encerra a discussão como um típico isentão, usando lógicas relativistas e malabarismos mentais para colocar as moças como igualmente intolerantes, incapazes de aceitar as opiniões alheias. É ele quem usa uma manipulação emocional barata (o passado trágico de Kensuke) para insinuar que as meninas julgavam sem conhecerem todos os fatos, como se elas fossem obrigadas a saberem toda a história de vida de uma pessoa para poder rebater as suas ideias machistas e homofóbicas. O sujeito ainda teve o disparate de acusá-las de levar a discussão para “ataques emocionais”, sendo que foi ele quem fez isso. Contudo, provavelmente toda essa parte me incomodou porque já vi discussões do tipo tomarem esse rumo muitas vezes na vida real. Principalmente quando são entre homens e mulheres ou quando são entre pessoas LGBTQ+ e homofóbicos. Muitas vezes saímos como “intolerantes” por não “aceitarmos” o suposto “direito” do outro de nos inferiorizar e nos odiar. Como se eles tivessem o “direito” de desejarem que nós nunca existíssemos. Nesse sentido, a representação de Ao no Flag é coerente, embora eu tema o rumo que essa trama possa tomar no último volume (não faço nenhuma questão de ver Touma fazendo as pazes com esses babacas).

Por fim, a discussão final entre Touma e o irmão é a que acho mais complicada de comentar. Por um lado, compreendo que envolve questões culturais. Porém, considerando que a sexualidade de Touma já é de conhecimento de TODA a escola, que ele se meteu numa briga por causa disso, que é alvo de rumores asquerosos… E que ainda envolve o futuro do rapaz, o retorno para os estudos em segurança e sua vontade de arranjar um emprego ao invés de cursar faculdade para ser livre imediatamente… Olha, Seiya precisava ser DIRETO com o irmão. O subtexto rende boas viradas de páginas em que uma aparente rejeição se revela na verdade um apoio incondicional, mas não é a conversa que eles precisavam ter naquele momento. Havia muita coisa que precisava ser dita de forma inequívoca. Seiya não tocar em nenhum desses assuntos diretamente enfraquece uma conversa que poderia ter rendido muito mais.

Por fim, o capítulo final que mostra a perspectiva de Touma ao longo da vida é uma obra prima. Além disso, disse muito sobre seu estado emocional que ele não aparece até a última página, ainda por cima de costas. Vemos a sua relação com o irmão e com o melhor amigo, o desejo para que Taichi fosse feliz e a esperança de que a presença de Futaba fizesse Taichi novamente sorrir ao seu lado. Absolutamente lindo. Provavelmente Touma é a personagem de Ao no Flag que mais vai ficar comigo. Também apreciei os momentinhos que mostram como Taichi e Futaba estão lidando com a revelação. Esse foi um volume doloroso de ser lido, mas nem por isso menos interessante.

P.S. Achei de péssimo tom e incoerente com a proposta do mangá a capa de um cap. com as moças semi-nuas.

21. Links v. único – Natsuki Kizu. Segundo a autora, ela escreveu essa coletânea BL “como se fosse um filme com múltiplos protagonistas, onde cada um deles converge naturalmente em uma corrente única de pensamento”. Kizu é uma mangaká competente e consegue executar muito bem a proposta. Porém, como tende a acontecer em coletâneas, apenas uma das histórias tem um desenvolvimento maior. Mesmo essa, ainda fica a sensação de que falta alguma coisa. Enfim, Links não tem o esplendor de Given, mas demonstra a competência da mangaká. 3/5

Março

22. Dragon Ball Edição Definitiva v.07 – Akira Toriyama. Esse volume encerra a saga Red Ribbon e começa a mini-saga da “Velha Vidente” (Vovó Uranai). Não é um dos melhores volumes de DB…

23. No.6 (Livro 5: “Aqueles que estão no abismo”) – Asano Atsuko. Eu tinha esquecido o tanto que os livros de No.6 eram bem escritos. Isso vale também para essa edição, por mais que seja aquele tipo de volume intermediário que mais prepara os próximos acontecimentos do que realmente desenvolve alguma coisa. 3/5

24. “Verissimas: Frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo” – Luis Fernando Verissimo. Coleção de frases de um dos grandes escritores brasileiros. “LUCROS: Nos EUA, a fabricação de crises militares de tempos em tempos segue a mesma lógica dos bares que servem amendoim salgado para manter a sede dos clientes num nível lucrativo.” & “IMPRENSA: A absoluta isenção jornalística é uma fantasia. A imprensa não deve procurar ser imparcial. Deve buscar não ser injusta.” & “VEXAME: O tímido é uma pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó.” 3/5

25. “Corrente de Ouro” (As Últimas Horas 1) – Cassandra Clare. Cordelia Carstairs chega a Londres com a missão de salvar a reputação do pai. Para a sua família, o ideal seria conseguir um bom casamento para a moça, mas ela deseja ser uma “heroína” como os heróis das histórias que tanta ouvira sobre Caçadores de Sombras do passado. Simultaneamente, James Herondale está apaixonadamente enfeitiçado por Grace Blackthorn, enquanto a sua irmã Lucie é a única (ou não…) que consegue ver o fantasma de Jesse Blackthorn. Como mostra esse resuminho, esse livro é centrado em três personagens principais. Também possui um grande elenco secundário. Um mapinha explicando as famílias teria sido de muita ajuda nas primeiras páginas, que se arrastam enquanto procurava me situar sobre quem era quem. Entretanto, esse livro é bem escrito, tem bons arcos de personagens e dinâmicas interessantes. Particularmente, gostei muito do laço entre os irmãos Carstairs. Não é tão intenso quanto TID (do qual é continuação), mas tem um enredo sólido e uma boa protagonista, sendo muito melhor do que o sofrido (em todos os sentidos da palavra) com vibe de primeiro rascunho TDA. Cassandra Clare prova aqui que ainda é uma boa contadora de histórias. 4/5

26. Hyperventilation v. único – Bboung Bbang Kkyu. BL em volume único coreano. Aos 27 anos, Myeong reencontra o seu primeiro amor, Han Seon-ho, na reunião da turma do ensino médio. Os dois acabam transando. Mas será que Seon-ho, que usa uma aliança, só está tirando proveito do rapaz? Ou será que há algo mais nas suas ações? Com uma arte muito bonita, esse manhwa tem uma história simples. Confesso que a minha parte favorita foram as “notas de produção” no final, com entrevistas da autora, dos dubladores e uma explicação das escolhas narrativas. O extra enriqueceu muito esse material. 3 para a história e 5 para o extra. 4/5

27. Princess Jellyfish v.03 (2-1) – Akiko Higashimura. As Amars dão os passos iniciais para criar uma linha de roupas baseadas em águas-vivas. Enquanto isso, Shu finalmente descobre que Tsukimi é a sua amada. Um bom volume de Kuragehime.

Abril

28. “Me apaixonei pela vilã v.02” – Inori (história) & Hanagata (ilustrações). A hora da “revolução” do movimento plebeu se aproxima. Simultaneamente, Claire e Rei se declaram uma para a outra, enquanto a dama vilã passa por uma tremenda jornada de crescimento ao aprender sobre a desigualdade social. Por sinal, muito bem executado tematicamente, abraçando questões políticas e sociais sem cair em discursos vazios. [Spoiler] A revolução resulta na queda da nobreza e na construção de uma democracia em que a monarquia tem uma função meramente simbólica, inspirada no Japão atual. Além disso, a história critica assassinar em praça pública os nobres sem cair em discursos de “matar é errado!!! Pobres coitados”, preferindo ao invés disso defender a prisão daqueles que cometeram crimes [/spoiler]. Entretanto, a parte que mais me surpreendeu é realmente o desenvolvimento excelente de Claire. Que personagem! O livro demora um pouquinho pra envolver, pois vai construindo aos poucos sem que tivéssemos acessos a todos os fatos (Rei sempre sabe mais do que conta), porém termina muito bem. Inclusive, já encerra a trama aqui. Com relação a edição da NewPOP, melhorou consideravelmente: é perceptível que o livro passou por uma revisão cuidadosa e leitura sensível, porém ainda peguei 8 erros de digital e um erro de concordância. Não culpo o novo revisor (creditado ao fim do livro), pois comparado ao livro anterior, ele fez milagre. Entretanto, a editora poderia facilitar a vida dos revisores se possibilitasse mais tempo e melhores textos para trabalharem. Se, por exemplo, não precisassem reescrever praticamente todas as páginas (considerando os erros gramaticais graves e palavras ofensivas da tradução do primeiro volume). O texto politizado e bem escrito de Inori finalmente recebeu o tratamento cuidadoso merecido. 4/5

29. Estranho à Beira-Mar – Kii Kanna. O escritor Shun e o colegial Mio são duas pessoas solitárias que acabam formando uma conexão. Shun foi rejeitado pela família após assumir ser gay, enquanto Mio perdeu os pais e não lida muito bem com a compaixão dos outros. Mio vai embora da ilha (em Okinawa) para estudar, voltando 3 anos depois e se declarando para Shun. Um romance (ou mesmo uma amizade) entre duas pessoas solitárias é a minha aesthetic. Além disso, os traumas individuais das personagens são muito bem explorados pela trama. Originalmente um volume único, considero um mérito que a história consegue ser simples, focando nos dois protagonistas. Esse BL é muito bem escrito e tem uma arte bonita. A edição está impecável. 5/5

 30. “O avesso da pele” – Jeferson Tenório. Um filho reflete sobre a vida dos pais, dirigindo-se ao pai em segunda pessoa. Esse romance ganhou o prêmio Jabuti 2021 e tem méritos para isso. A escrita é envolvente e lida com temas importantes, como o racismo estrutural da sociedade brasileira e a desigualdade social resultante disso. A opção por escrever os capítulos como um único parágrafo contínuo não incomodou na versão ebook. Entretanto, como acontece nessas obras que escancaram problemas sociais da nossa sociedade, parece que as situações enfrentadas pelas personagens são mais uma “desculpa” para fazer um determinado comentário social do que realmente uma narrativa sobre a vida dessas pessoas. A vida dos pais de Pedro (o narrador cujo nome só descobrimos na última parte) é marcada por tristeza, sofrimento atrás de sofrimento, sempre em consequência do racismo ou da pobreza (mesmo depois que ascenderam socialmente). Nunca houve nenhum momento feliz na vida dessas pessoas? Nem quando se apaixonaram, casaram ou tiveram filho? Não sentiram alegria quando entraram e formaram na faculdade? Henrique, o pai, só foi se conectar com seus alunos e sentir orgulho da profissão no fim da vida? Além disso, todas as conexões (com exceção dessa última) foram feitas na base do sofrimento mútuo. E, principalmente, numa narrativa de um filho sobre a vida dos pais, cadê os momentos de conexão entre pais e filhos? O narrador aparece muito pouco, sendo mal explorada a sua relação com o pai. Por fim, eu gostei bastante da parte final. “A Barca” funciona muito bem isoladamente. Tem tensão, construção narrativa e um pequeno triunfo antes da tragédia final da vida de Henrique. É a parte em que o comentário social está tão envolvido com a história que funciona perfeitamente, gerando o devido sentimento de revolta. 3/5

31. Spy x Family v.02 – Tatsuya Endo. Anya é aceita na escola. Para a missão ser um sucesso, o espião Twilight trabalha com dois planos: a) a garota receber todos os méritos necessários para que sua família seja convidada pro grupinho seleto do que o alvo faz parte; ou b) a opção mais fácil, Anya se tornar amiga de Desmond, o filho do alvo. Porém, a relação entre as crianças logo se mostra conflituosa, embora haja algo há mais nos sentimentos de Desmond por Anya… Spy x Family continua entregando “situações familiares” de uma forma diferente e divertida. É um mangá da JUMP que foge de todos os clichês.

32. Bloom into you v.06 – Nio Nakatani. A peça teatral ocorre sem problemas. Entretanto, Nanami finalmente se “liberta” dos assuntos inacabados da irmã, se vendo diante de um futuro sem planejamento prévio, mas também sem um peso nos ombros. Yuu acaba se declarando para a moça quando esta pede para que fique sempre ao seu lado. E assim, o mangá entra na reta final. 5/5

33. Banana Fish v.08 – Akimi Yoshida. Infelizmente, o arco final é o mais fraco de Banana Fish. A introdução da ameaça dos militares é péssima. A primeira parte do volume tem a mesma fórmula dos últimos volumes: “Ash sequestrado > resgate mais atrapalha do que ajuda > o próprio Ash se salva e precisa salvar os inúteis também”. Já na segunda parte, Golzine contrata militares europeus que exterminaram guerrilheiros na África. Se tivesse seguido por um caminho de guerra, talvez teria sido interessante, mas na prática termina da mesma forma de sempre (Ash sequestrado pela enésima vez). O maior problema virá no próximo volume. Além disso, com as ressalvas de se tratar de um mangá de 1980 e de possuir um fator representativo importante, é inegável que na reta final o subtexto homofóbico de Banana Fish fica cada vez mais escancarado (ao constantemente igualar homossexualidade com pedofilia e estupro). 2/5

34. Real v.03 – Takehiko Inoue. Nomiya procura Natsumi, mas é levado a questionar se realmente se preocupava com a garota ou se era por uma motivação egoísta (receber um perdão que lhe fizesse se sentir melhor consigo mesmo). Enquanto isso, a maior parte do volume foca no drama de Takahashi, trazendo múltiplas camadas ao lidar com os pais do garoto e a sua situação. Particularmente, gostei da camada adicionada a mãe de Takahashi, principalmente quando a enfermeira a lembrou que também precisava de apoio nesse momento. Real é um drama impecável. 5/5

35. “Love stops rumors” (谣言止于恋爱) – Xiao Chen. Um divertidíssimo livro BL chinês. Wei Ru Song cai em cima de seu novo colega de quarto, Xiao Nian, quando este acabara de sair do banho. A namorada de Wei Ru Song “flagra” a cena e assume que está sendo traída. Esses eventos resultam na faculdade inteira achando que Wei Ru Song e Xiao Nian estão tendo um caso, o que parece ser confirmado por mais mal-entendidos. Por mais que haja algumas situações absurdas (afinal, é humor crack), de um modo geral é um slice of life universitário engraçado e descompromissado. O casal é uma fofura e a autora (ou autor) subverte muito bem o clichê de “hetero vira gay” (spoiler: Wei Ru Song já tinha experiência prévia com outros caras e Xiao Nian nunca tinha se relacionado com ninguém). 3/5

36. Ao no flag v.08 – Kaito. Na conclusão desse maravilhoso drama sobre um triângulo amoroso bissexual, Taichi finalmente “surta” por não saber o que fazer diante da pressão da declaração de Touma e de todos os colegas saberem e opinarem sobre a situação. No final, prevalece o diálogo – seja entre Touma e Futaba ou Taichi e Touma – e a amizade entre os três. Numa bonita narração, Taichi remanesce sobre tudo que aprendeu com Futaba e como mudou para melhor por causa dela. Em muitos sentidos, Ao no Flag é como uma reminiscência do primeiro namoro e do crescimento durante um momento de transição na vida que é a conclusão do Ensino Médio. Assim, Taichi narra que dois anos depois, terminou com a garota (provavelmente por cursarem faculdades em províncias diferentes) e, 5 anos depois, se reencontraram a pedido de Touma… quem é, pelo que tudo indica, o marido de Taichi de quem vemos o POV no último capítulo. Esse final é perfeitamente coerente dentro da lógica da reminiscência que sempre prevaleceu no tom melancólico de Ao no Flag. É a lembrança do primeiro amor ou namoro (afinal, o primeiro amor em si provavelmente foi o próprio Touma, antes que Taichi conseguisse nomear esse sentimento) que ajudou a moldar quem Taichi se tornaria, para que pudesse ser um homem autoconsciente e firme nas suas escolhas, orgulhoso de sua bissexualidade e que assumiria o seu amor por Touma independentemente do que pensa a sociedade conservadora. Por fim, por mais que eu goste do final, gostaria bastante de um gaiden que abarcasse os 5 anos entre o término com Futaba e o reencontro, mostrando a história do relacionamento de Touma e Taichi. Isso dito, Ao no Flag termina como uma das melhores leituras que fiz nos últimos anos. Fazia tempo que eu não aguardava tão ansiosamente por um próximo volume e devorava assim que chegava. 5/5

37. “A fórmula preferida do professor” – Yoko Ogawa. Uma mãe solteira é contratada para trabalhar como empregada doméstica na casa de um professor de matemática idoso, cuja memória dura apenas 80 minutos. Aos poucos a empregada, seu filho apelidado de “Raiz” e o professor se tornam amigos. Nenhuma das personagens ser nomeada não impediu que fossem cheias de humanidade. Principalmente a protagonista, que é cheia de empatia e acaba descobrindo um amor mútuo pela matemática com o professor. Esse é um drama sensível e uma leitura confortável. 4/5

38. Wotakoi v.04 – Fujita. Um volume simpático e descontraído de Wotakoi.

Maio

39. Terra das Gemas v.01 – Haruko Ichikawa. Steven Universe + shounen psicodélico filosófico + arte ligeiramente confusa, mas estranhamente bonita (embora não faça jus a bela capa). A edição está muito bonita para um mangá padrão. Porém, a história não faz o meu estilo.

40. “Mulheres empilhadas” – Patrícia Melo. Após levar um tapa do namorado, uma advogada viaja para o Acre a trabalho, com a finalidade de computar os casos de feminicídio numa cidade pequena. Em Cruzeiro do Sul, ela acaba se deparando com o caso de uma pré-adolescente indígena estuprada e assassinada por três homens brancos ricos. O ponto alto do livro é a abordagem bem construída dos temas centrais: feminicídio, violência contra a mulher e violência e preconceito contra os povos indígenas. Eu gostei da parte dramática e acho que tinha tudo para ser um bom livro de drama jurídico, com clima de horror quando descreve os crimes. Porém, a parte final desanda numa sequência de mortes que acabam sendo mal explicadas pela trama. Além disso, as partes que a protagonista alucina ao usar drogas típicas se alongam demais. Por fim, a representação indígena acaba também caindo em alguns estereótipos. O que não me impede de recomendar essa leitura. As qualidades mais do que compensam pelos defeitos. 3,5/5

41. Dragon Ball Edição Definitiva v.08 – Akira Toriyama. Esse volume encerra a saga da “Velha Vidente” com um reencontro emocionante de Goku com o avô e tem uma passagem de tempo de três anos para um novo Torneio de Artes Marciais. Também marca a introdução de Ten Shin Han e Chaos. Só posso dizer que eu definitivamente leria um spin-off de DB que fosse basicamente um mangá de esportes em que a maior estaca é quem vencerá o torneio. Todas as sagas de torneio são divertidíssimas. É uma pena que Toriyama nunca tenha escrito um mangá de esportes. Ele tem talento pra esse tipo de narrativa.

42. My Broken Mariko – Waka Hirako. Abalada com o suicídio da melhor amiga, Shiino impulsivamente rouba as suas cinzas do altar. Mariko tinha um histórico imenso de abuso físico ao longo da vida, tendo sido também estuprada pelo próprio pai. Embora trate de um assunto importante, senti que a história não foi bem concluída. A arte é impactante em alguns momentos, mas em outros demasiadamente caricata. Além disso, a história extra no final do volume (de faroeste) não condiz minimamente com o tom realista de My Broken Mariko. Infelizmente, a sensação final é que eu esperava mais desse mangá.

43. “Na corda bamba” – Kiley Reid. Emira trabalha como babá para a família de Alix Chamberlain. Um dia, ela é chamada para cuidar da filha de Alix durante a noite e leva-la para o supermercado enquanto a família lidava com um problema. Porém, o segurança do supermercado a acusa de ter sequestrado a menina, por ser negra e a menina branca. Enquanto isso, Kelley filma tudo e, posteriormente, incentiva Emira a divulgar o acontecimento nas redes sociais. “Na corda bamba” é uma crítica contundente aos “salvadores brancos” e a “justiça social” performativa. De muitas maneiras, tanto Alix quanto Kelley usam Emira de forma condescendente, colocando-se como os salvadores da moça e competindo para provar quem é o “menos racista” entre os dois. Por isso mesmo, acredito que o flashback final de Alix e a forma como a narrativa a constrói como a destruidora de um jovem negro na adolescência (nota: a história dá complexidade para a situação, a tal ponto que o lado dela é 100% compreensível e Kevin é o maior culpado pelas próprias ações, a questão racial pesando muito mais na penalidade empregada contra um adolescente burro por ser negro) acabam por pintar Kelley como o menos pior, o que considero contra produtivo para o ponto final de que ambos são farinha do mesmo saco. De resto, esse é um drama contemporâneo muito bem construído. 4/5

44. “A Mão e o Tamboril” (It’s okay to not be okay – Livro 4) – Ko Moon-young (Jo Yong e Jam San). Embora a arte deste livro seja fraca em comparação aos demais da coleção, “A Mão e o Tamboril” mantém o padrão de qualidade narrativa. O livro possuí pouquíssimas páginas, mas grande profundidade. 5/5

45. “As estranhas e belas mágoas de Ava Lavender” – Leslye Walton. Esse livro é um conto de fadas sombrio que se passa nos EUA da primeira metade do século XX. Ava Lavender narra a história trágica de sua família, começando por sua bisavó, embora foque mais nas histórias das perdas de sua avó e no drama amoroso de sua mãe (as melhores partes do livro). Entretanto, quando finalmente chega a hora de contar a história da própria Ava, uma menina que nasceu com asas, fica claro que não havia uma trama de verdade. A narrativa passa a construir o momento trágico que marcaria a vida da protagonista… Por fim, a linguagem da escrita é muito bonita, mesclando a magia de um conto de fadas com uma melancolia coerente com uma narrativa tão sombria e trágica. 3/5

46 & 47. Kamen Rider v.02 & 03 – Shotaro ISHInoMORI. Enquanto o segundo volume introduz um novo Kamen Rider, o jornalista Ichimonji, o terceiro volume encerra muito bem a narrativa. A trama se revela tematicamente de natureza política, proporcionando uma cena icônica em que o monstro revela que a “culpa” era do mocinho, por ter votado no atual governo. Kamen Rider é uma obra do seu tempo: um momento em que o governo japonês discutia a possibilidade de militarização. Tanto Hongo quanto Ichimonji foram transformados a força em “soldados”. Não é por mera coincidência que a história também relembra as vítimas de Hiroshima e como ainda havia consequências da radiação décadas depois. Além disso, ISHInoMORI sabia contar uma história de forma ágil e envolvente. A breguice dos diálogos é charmosa.  O fato de que muitos nerds reaças brasileiros se doeram com o volume final adiciona um tempero ainda mais especial para esse mangá. 5/5

48. “Os elefantes não esquecem” – Agatha Christie. A escritora Ariadne Oliver recruta a ajuda do detetive Poirot para solucionar um caso ocorrido 20 anos antes: o suicídio duplo de um casal. O marido matou a esposa ou a esposa matou o marido? Esse é o mistério mais fraco do detetive. A solução é previsível já na metade do livro e a maior parte da narrativa consiste em uma sequência de divagações sobre o passado. 2/5

Junho

49. O marido do meu irmão v.01 – Gengoroh Tagame. Um pai solteiro é visitado pelo marido de seu irmão falecido. Esse mangá é um bom drama sobre luto, preconceito, família e seguir em frente. A pauta LGBTQ+ é tratada de uma forma didática, mas inserida naturalmente dentro da trama. 4/5

50. “Grama” – Keum Suk Gendry-Kim. Essa manhwa biográfico conta a história de Ok-sun, uma moça pobre que foi escravizada sexualmente pelo exército japonês na Segunda Guerra Mundial. Grama também acerta ao mostrar a vida trágica de Ok-sun depois da libertação da Coreia, quando as “mulheres de conforto” foram abandonadas, sem nenhuma assistência governamental. A autora possui uma arte simples, mas efetiva e sensível ao retratar os horrores vividos pela protagonista. Sobretudo, Grama dá voz as milhares de mulheres pobres (de diversas nacionalidades) que foram escravizadas sexualmente pelo Japão. Esse quadrinho, triste e importante, é um ode para que não esqueçamos dos horrores dessa guerra, dos crimes do governo fascista japonês da época e de como a violência contra a mulher é perpetuada na guerra. Afinal, a guerra não tem rosto de mulher. Também é um ode para que haja justiça para elas – de todas as maneiras possíveis (pedido de desculpas oficial, reconhecimento por parte do governo japonês atual, indenização paras vítimas, condenação [mesmo que póstuma] dos criminosos, etc…). 5/5

51. “O livro branco perdido” (As Maldições Ancestrais v.02) – Cassandra Clare & Wesley Chu. Quando o livro branco é roubado por Ragnor Fell e Shinyun Jung, Alec e Magnus – na companhia da gangue de TMI – vão a Xangai para impedir mais uma ameaça ao mundo. Infelizmente, a melhor parte do livro é o seu final, com um epílogo instigante e um conto extra sobre o casamento de Jessa. Esse livro é cheio de ação, mas não é divertido como os outros da saga. O estilo da fantasia parecia meio off do padrão dos caçadores de sombras, não teve tanto romance entre Malec como o predecessor e as participações especiais de personagens recorrentes da franquia soavam mais como um fanservice gratuito do que uma verdadeira exploração dos mesmos. Particularmente, achei que o livro força demais a barra para criar uma relação entre Jem e a família Ke, ignorando que Jem deixou a China quando era criança há quase 150 anos atrás. Como Irmão do Silêncio, ele só poderia se encontrar com a amada uma vez por ano, não faz sentido que tenha mantido uma conexão tão forte com a família materna nesse meio tempo.  Imagine basicamente participar de todos os almoços de domingo durante mais de um século? Em contrapartida, o conto extra entrega exatamente o tipo de fanservice que vale à pena: interações coerentes entre as personagens que amamos. Por fim, o gancho final é muito bom, se for de fato explorado por essa saga e não um mero setup para outra história. 2,5/5

52. Blue Period v.01 – Tsubasa Yamaguchi. Yatora entra em contato com o clube de artes da escola, despertando no garoto uma paixão pela pintura e um interesse de seguir essa carreira profissionalmente. O ritmo do mangá é melhor do que o do anime e traz um desenvolvimento mais natural para o drama excelente das personagens, embora por vezes tenha um excesso de exposição (sobre arte, técnicas, etc.). Além disso, a edição nacional deixou muito a desejar na revisão e na falta de uma leitura sensível. A personagem Yuka é introduzida como “o crossdresser” com uma notinha ruim pra explicar o que isso significa. Ao contrário da legenda da Netflix, que peca pelo excesso de zelo (ao colocar personagem transfóbico usando linguagem neutra), a edição da Panini optou por remover o gênero de todas as menções a personagem. Assim, além de uma tradução literal, sem sentido e ofensiva na introdução da personagem, a Panini fez uma escolha covarde de adaptação. Enfim, Blue Period é um mangá com uma personagem trans maravilhosa. É uma pena que a edição nacional não respeitou isso.

53. “História da sua vida e outros contos” – Ted Chiang. Essa antologia de contos de ficção científica tem como padrão um estilo técnico e sem vida de escrita. Com exceção do conto título, que deu origem ao filme A Chegada e é de fato uma obra prima, os contos são insonsos e marcados por moralismo religioso. 1,5/5

54. A flor ranzinza e sincera v. único – Mahito Aobe. Um BL sobre um adolescente que descobre que o crush tem uma namorada. O seu coração partido começa a se curar quando conhece o dono de uma floricultura. Três pontos: a história passa rápido, ignora a diferença de idade entre os protagonistas e o texto dessa edição deixa muito a desejar. Esse mangá é um bom exemplo de como os problemas de revisão da Newpop são muitas vezes problemas graves de tradução. Por exemplo, na p. 15, “Desculpe, roupas do seu tamanho só tinham essas.” A revisora deveria ter alterado a estrutura da frase? Absolutamente. Porém, é um problema que já veio da tradução literal demais…

55. “Os dois morrem no final” – Adam Silvera. A Central da Morte avisa, entre meia-noite e 3h da madrugada, as pessoas que morrerão naquele dia. Mateo e Rufus recebem o alerta e passam o último dia juntos, tentando resolver todos os assuntos inacabados e viver as últimas horas que lhes restam ao máximo. A obra-prima de Silvera pode não ter o mesmo impacto do magistral “Lembra aquela vez”, mas é tão criativo e único quanto os livros predecessores do autor. Só duas coisinhas me incomodaram. A morte estúpida de um dos protagonistas (não é spoiler se está no título) e uma cena em que vivenciam em 80 minutos vários países do mundo. Na cena em questão, enquanto descreve coisas bacanas dos outros países, a narrativa coloca um jogo de dominó em troca de açúcar em Cuba e uma piada de que na China é “proibido ressuscitar”. Típica bobajada norte-americana anticomunista ou não, o fato é que 1) Silvera provavelmente nunca leu nenhum livro de fantasia chinesa e 2) O que um autor de descendência latina acha que ganha ao debochar de cubanos pobres? Além disso, isso contribui para a sensação de que o meio do livro tinha potencial pra ser muito interessante, mas acaba com a sensação de que pouco acontece nessa parte. Enfim, “Os dois morrem no final” é uma leitura envolvente (especialmente ao mostrar o ponto de vista de outras personagens), instigante e única. Adam Silvera é um dos grandes mestres da ficção científica contemporânea. 3,5/5

56. Bloom into you v.07 – Nio Nakatani. Em uma viagem escolar, Sayaka se declara para Nanami. Isso ajuda Nanami a aceitar que sua relação mude com sua amada Yuu, após a declaração da garota. As peças já estão no lugar para que Bloom into you feche com chave de ouro. 5/5

57. Terra das Gemas v.02 – Haruko Ichikawa. Eu gostei mais desse volume do que do primeiro, o ritmo é melhor e a protagonista Fos está mais carismática. O enquadramento provavelmente é o aspecto que mais gostei, pois é o responsável pelo ritmo e pela atmosfera da trama (junto ao uso de claro e escuro). Em outros tempos, quando os mangás eram mais baratos, talvez eu tivesse continuado essa coleção. 3/5

58. O outro cão que guarda as estrelas v. único – Takashi Murakami. Essa continuação de “O cão que guarda as estrelas” é menos dramática que o original, mas continua contando belas histórias. O tema central dos dois contos é como pessoas solitárias acabam encontrando conforto e esperança na companhia de um cachorro. 5/5